Bruno Lara (*)
Podem falar que a poesia e a literatura em geral são como anestesia para a vida, não ligo. O fato é que ambas são boas, são ótimas, são lindas!
Sou daqueles que enxergam poeticamente a vida, percebendo detalhes em situações comuns, a principio banais. Por exemplo? Na briga do casal, ou mesmo quando esse toma sorvete de casquinha no banquinho da praça às 17h de um domingo qualquer; na movimentação das pessoas no ponto de ônibus; no cachorro tirando pulgas; na formação ou deformação das nuvens; na menina tímida e delicada; na chuva; no samba que acontece no bar; no abraço entre pai e filho; no passarinho alimentando os filhotes...
Essas são algumas das situações que me chamam a atenção, despertam o meu olhar curioso. Geralmente, guardo-as para mim, não comento com alguém. Na média, as pessoas consideram tolas a cenas descritas acima.
É difícil compartilhar a beleza do vento tirando o sossego das árvores, que trazem o som das folhas batendo umas contra as outras e mexendo com toda uma gama de bichos que ali habitam. É difícil compartilhar o choro ou mesmo o sorriso encantador da menina que caminha na calçada entre inúmeras outras pessoas. É difícil compartilhar a beleza do infinito amor que o vira-lata oferece a qualquer pedestre. São difíceis sim, mas a compreensão é prazerosa!
Na falta de muitas visões poéticas e ouvidos sensíveis, encontro uma fria e vulgar folha de caderno antigo. A princípio, ela aceita tudo, mas ao ser preenchida, a folha deixa de ser ordinária e personaliza-se. Agora ela é uma arte, assim como a moça da vida que tornou-se uma dama apaixonante.
(*) Estudante de Comunicação Social e editor do blog letraseharmonia.blogspot.com/ .
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Close-up, por Eduardo Oliveira Freire
Eduardo Oliveira Freire (*)
Vista panorâmica da cidade. Aleatoriamente focaliza-se um ponto. O rapaz corre com a moto para fazer um entrega. Trabalha bastante, quer juntar algum para o casamento.
Chegou ao seu destino e entrega a uma moça o envelope. Ela está triste por estar sozinha em uma cidade estranha, o marido só chega à noite. A moça tenta se adaptar. Liga para o marido e diz que o documento importante chegou.
Ele está com muitos afazeres, precisa desta promoção. Fala apressadamente com a mulher, porque tem uma reunião com o chefe. O senhor que fala com rapaz à sua frente é um sargento na empresa, porém em casa, uma manteiga derretida.
O mais novo telefonou, tentou convencê-lo a lhe dar de presente uma moto. Ele argumentou que vai pensar sobre o assunto. A servente bate na porta, pergunta se pode limpar o recinto. Está lá há pouco tempo e muito contente com o emprego. Vai poder ajudar o marido na prestação da casa e fazer uma bela ceia de natal. Desfoca. Retorna-se à vista panorâmica da cidade.
(*) Eduardo Oliveira Freire é formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense, está cursando Pós Graduação em Jornalismo Cultural na Estácio de Sá e é aspirante a escritor.
Vista panorâmica da cidade. Aleatoriamente focaliza-se um ponto. O rapaz corre com a moto para fazer um entrega. Trabalha bastante, quer juntar algum para o casamento.
Chegou ao seu destino e entrega a uma moça o envelope. Ela está triste por estar sozinha em uma cidade estranha, o marido só chega à noite. A moça tenta se adaptar. Liga para o marido e diz que o documento importante chegou.
Ele está com muitos afazeres, precisa desta promoção. Fala apressadamente com a mulher, porque tem uma reunião com o chefe. O senhor que fala com rapaz à sua frente é um sargento na empresa, porém em casa, uma manteiga derretida.
O mais novo telefonou, tentou convencê-lo a lhe dar de presente uma moto. Ele argumentou que vai pensar sobre o assunto. A servente bate na porta, pergunta se pode limpar o recinto. Está lá há pouco tempo e muito contente com o emprego. Vai poder ajudar o marido na prestação da casa e fazer uma bela ceia de natal. Desfoca. Retorna-se à vista panorâmica da cidade.
(*) Eduardo Oliveira Freire é formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense, está cursando Pós Graduação em Jornalismo Cultural na Estácio de Sá e é aspirante a escritor.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Dona Nena, por Risomar Fasanaro
Risomar Fasanaro (*)
Minha mãe além de ser uma pessoa que nos tornava cativos com suas histórias, preservava certa ingenuidade própria de quem levava o seu modo de vida. Casou-se cedo, quase não saía de casa, só convivia com os filhos, o marido e alguns poucos amigos, distante da capital. É possível que isso concorresse para aquela ingenuidade. Acreditava em qualquer historia que lhe contassem.
Valendo-nos disso, a partir da adolescência criávamos em casa um clima de muita alegria, pois com dois filhos e duas filhas tínhamos sempre alguma história criada por nós, para animar o ambiente.
Leovil, um amigo, na verdade quase nosso irmão, pois viera morar conosco em Osasco, aos dezessete anos, para cursar o colegial, e nunca mais voltou a viver com os verdadeiros pais, tinha um cão de raça, grande, lindo. Acontece que um dia resolveu construir nos fundos da casa onde morava um salão de festas, e tudo correria bem se o cão não tivesse implicado com os pedreiros e se pusesse a avançar e a atrapalhá-los no serviço. Tornou-se impossível a permanência dele naquele espaço.
Vida (apelido de Leovil) pediu aos meus pais para ficar com o animal alguns dias, enquanto se construía o salão. Não tenho certeza, mas acho que meus pais só aprenderam a dizer não aos filhos verdadeiros. E assim o cachorro veio para nossa casa.
Como era muito grande e bravo, ficou preso a uma goiabeira que havia no fundo do quintal. O animal não nos conhecia, por isso nos estranhava tanto quanto tinha estranhado os pedreiros, e seu latido interminável continuou lá em casa. Latia tanto que ficava com os olhos intensamente vermelhos.
Minha mãe estranhou os olhos daquele cachorro. Afinal, ela sempre criou cães em casa, e nunca vira nenhum que latisse daquela forma, nem que tivesse os olhos vermelhos. Um dia em que cheguei do colégio onde dava aulas, ela me chamou, me mandou olhar os olhos do cachorro e com seu sotaque e sua conjugação verbal pernambucana, sempre na segunda pessoa do singular, me perguntou:
-Risomar, já viste como este cachorro tem os olhos vermelhos?
Olhei o cachorro e vi que realmente estavam mais vermelhos que a bandeira do PT. Imediatamente me veio a vontade de aproveitar aquilo para inventar uma história:
-Sabe o que é, mamãe, é que Vida dá maconha pro cachorro, e como ele já está há dois dias aqui sem a droga, fica assim...
Minha mãe arregalou os olhos e disse:
-Risomar, não me diz uma desgraça dessa!...Vida dá maconha pro bichinho?
E eu, cinicamente confirmei:
-Pois é, mamãe, ele dá, que é pra o cachorro parar de latir e não incomodar os vizinhos...
Como ela já estava acostumada que em nossa casa, onde havia além de mim, meu filho, meus irmãos e sobrinhos, além dos inúmeros amigos que tínhamos, sempre circulando por ali, e cada dia alguém inventando uma novidade, não acreditou a princípio:
-Estás inventando isso, só pra me assustar...
E eu me investindo de toda seriedade, reiterei:
-Não, mamãe, é verdade. Eu acho isso um horror, até já falei com ele, mas ele disse que é o único jeito de acalmar o Bundum.
-Bum o que, menina?
- Bundum mamãe, é esse o nome do cachorro.
- Isso é lá nome pra se dar a um animal de estimação... Eu sempre escolhi nomes bonitos pros meus bichinhos...
Ainda não convencida, mamãe argumentou:
-É brincadeira tua, vou perguntar essa história a Rômulo.
Imediatamente tratei de ir à casa do meu irmão que morava perto, e preveni-lo. Animado com a história, dali a um pouco ele foi lá, como se não soubesse de nada. Assim que chegou, ela foi logo perguntando:
-Rômulo, é verdade que Vida dá maconha ao cachorro pra ele não ficar latindo?
Rômulo que fala pouquíssimo, e por isso merecia dela muito mais crédito do que qualquer um de nós, respondeu:
-É sim, mamãe, ele dá maconha ao cachorro umas três vezes por dia...
E minha mãe horrorizada, perguntou:
-E isso é permitido por lei?
-Claro que não!... Se a policia descobrir que a gente tem um cachorro aqui que usa maconha, vai dar o maior problema...
E ela, com as mãos postas:
-Virgem Maria! Minha Nossa Senhora da Conceição!
E, em tom, autoritário:
- Risomar, chame seu pai!
A essa altura, toda a família já havia entrado no jogo e exagerava os riscos que corríamos com aquele cachorro ali. Todos falavam ao mesmo tempo, cada um dava um palpite. Ninguém entendendo o que o outro dizia, o que era um hábito familiar sempre que nos reuníamos.
A cada um que chegava ela perguntava o que achava e todos a alarmavam, falavam do perigo que aquele animal nos oferecia.
Por fim ela pediu ao meu pai. Pediu é uma forma delicada de falar, na verdade o tom era quase de uma ordem:
-João, vá à casa de Vida e diga a ele que a gente não pode ter mais este cachorro aqui.
Que é pra ele vir buscá-lo!
Saí de fininho da cozinha, onde toda essa discussão se processava, e liguei pra Leovil. Contei o que se passava a ele, e pedi para ir lá em casa e sustentar a história que eu criara. Vida, que faleceu há mais de oito anos, era a pessoa mais brincalhona que conheci em toda minha vida. Um contador de piadas dos maiores. Além de ser um rapaz belíssimo, estava sempre rindo.
Animado com a brincadeira veio imediatamente à nossa casa, e ela, toda cheia de dedos, não querendo magoá-lo, por fim achou um jeito de perguntar:
-Leovil, por que esse cachorro late tanto?
E ele com a naturalidade própria dos que estão acostumados a esse tipo de brincadeira:
-Sabe o que é, dona Nena, é que eu dou maconha a ele três vezes por dia, e nem ontem nem hoje eu dei. É por isso que ele está assim. Está sentindo falta da droga...
Mamãe arregalou os olhos e toda pesarosa, disse:
-Ô meu filho, leva esse cachorro embora, ele não gostou daqui não, ele não se deu com a gente não.
Foi nesse momento que todo mundo começou a rir e ela percebeu que estávamos brincando. No mesmo instante virou-se pra mim:
-Mas, Risomar, como tiveste coragem de fazer isso com tua mãe!
E não resistindo à comicidade da situação, olhou de novo pro cachorro e comentou:
-E num é que ele é até bonitinho!. –..E começou a rir conosco..
(*) Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora, autora de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e José Louzeiro. Militante contra a última ditadura militar no Brasil.
Minha mãe além de ser uma pessoa que nos tornava cativos com suas histórias, preservava certa ingenuidade própria de quem levava o seu modo de vida. Casou-se cedo, quase não saía de casa, só convivia com os filhos, o marido e alguns poucos amigos, distante da capital. É possível que isso concorresse para aquela ingenuidade. Acreditava em qualquer historia que lhe contassem.
Valendo-nos disso, a partir da adolescência criávamos em casa um clima de muita alegria, pois com dois filhos e duas filhas tínhamos sempre alguma história criada por nós, para animar o ambiente.
Leovil, um amigo, na verdade quase nosso irmão, pois viera morar conosco em Osasco, aos dezessete anos, para cursar o colegial, e nunca mais voltou a viver com os verdadeiros pais, tinha um cão de raça, grande, lindo. Acontece que um dia resolveu construir nos fundos da casa onde morava um salão de festas, e tudo correria bem se o cão não tivesse implicado com os pedreiros e se pusesse a avançar e a atrapalhá-los no serviço. Tornou-se impossível a permanência dele naquele espaço.
Vida (apelido de Leovil) pediu aos meus pais para ficar com o animal alguns dias, enquanto se construía o salão. Não tenho certeza, mas acho que meus pais só aprenderam a dizer não aos filhos verdadeiros. E assim o cachorro veio para nossa casa.
Como era muito grande e bravo, ficou preso a uma goiabeira que havia no fundo do quintal. O animal não nos conhecia, por isso nos estranhava tanto quanto tinha estranhado os pedreiros, e seu latido interminável continuou lá em casa. Latia tanto que ficava com os olhos intensamente vermelhos.
Minha mãe estranhou os olhos daquele cachorro. Afinal, ela sempre criou cães em casa, e nunca vira nenhum que latisse daquela forma, nem que tivesse os olhos vermelhos. Um dia em que cheguei do colégio onde dava aulas, ela me chamou, me mandou olhar os olhos do cachorro e com seu sotaque e sua conjugação verbal pernambucana, sempre na segunda pessoa do singular, me perguntou:
-Risomar, já viste como este cachorro tem os olhos vermelhos?
Olhei o cachorro e vi que realmente estavam mais vermelhos que a bandeira do PT. Imediatamente me veio a vontade de aproveitar aquilo para inventar uma história:
-Sabe o que é, mamãe, é que Vida dá maconha pro cachorro, e como ele já está há dois dias aqui sem a droga, fica assim...
Minha mãe arregalou os olhos e disse:
-Risomar, não me diz uma desgraça dessa!...Vida dá maconha pro bichinho?
E eu, cinicamente confirmei:
-Pois é, mamãe, ele dá, que é pra o cachorro parar de latir e não incomodar os vizinhos...
Como ela já estava acostumada que em nossa casa, onde havia além de mim, meu filho, meus irmãos e sobrinhos, além dos inúmeros amigos que tínhamos, sempre circulando por ali, e cada dia alguém inventando uma novidade, não acreditou a princípio:
-Estás inventando isso, só pra me assustar...
E eu me investindo de toda seriedade, reiterei:
-Não, mamãe, é verdade. Eu acho isso um horror, até já falei com ele, mas ele disse que é o único jeito de acalmar o Bundum.
-Bum o que, menina?
- Bundum mamãe, é esse o nome do cachorro.
- Isso é lá nome pra se dar a um animal de estimação... Eu sempre escolhi nomes bonitos pros meus bichinhos...
Ainda não convencida, mamãe argumentou:
-É brincadeira tua, vou perguntar essa história a Rômulo.
Imediatamente tratei de ir à casa do meu irmão que morava perto, e preveni-lo. Animado com a história, dali a um pouco ele foi lá, como se não soubesse de nada. Assim que chegou, ela foi logo perguntando:
-Rômulo, é verdade que Vida dá maconha ao cachorro pra ele não ficar latindo?
Rômulo que fala pouquíssimo, e por isso merecia dela muito mais crédito do que qualquer um de nós, respondeu:
-É sim, mamãe, ele dá maconha ao cachorro umas três vezes por dia...
E minha mãe horrorizada, perguntou:
-E isso é permitido por lei?
-Claro que não!... Se a policia descobrir que a gente tem um cachorro aqui que usa maconha, vai dar o maior problema...
E ela, com as mãos postas:
-Virgem Maria! Minha Nossa Senhora da Conceição!
E, em tom, autoritário:
- Risomar, chame seu pai!
A essa altura, toda a família já havia entrado no jogo e exagerava os riscos que corríamos com aquele cachorro ali. Todos falavam ao mesmo tempo, cada um dava um palpite. Ninguém entendendo o que o outro dizia, o que era um hábito familiar sempre que nos reuníamos.
A cada um que chegava ela perguntava o que achava e todos a alarmavam, falavam do perigo que aquele animal nos oferecia.
Por fim ela pediu ao meu pai. Pediu é uma forma delicada de falar, na verdade o tom era quase de uma ordem:
-João, vá à casa de Vida e diga a ele que a gente não pode ter mais este cachorro aqui.
Que é pra ele vir buscá-lo!
Saí de fininho da cozinha, onde toda essa discussão se processava, e liguei pra Leovil. Contei o que se passava a ele, e pedi para ir lá em casa e sustentar a história que eu criara. Vida, que faleceu há mais de oito anos, era a pessoa mais brincalhona que conheci em toda minha vida. Um contador de piadas dos maiores. Além de ser um rapaz belíssimo, estava sempre rindo.
Animado com a brincadeira veio imediatamente à nossa casa, e ela, toda cheia de dedos, não querendo magoá-lo, por fim achou um jeito de perguntar:
-Leovil, por que esse cachorro late tanto?
E ele com a naturalidade própria dos que estão acostumados a esse tipo de brincadeira:
-Sabe o que é, dona Nena, é que eu dou maconha a ele três vezes por dia, e nem ontem nem hoje eu dei. É por isso que ele está assim. Está sentindo falta da droga...
Mamãe arregalou os olhos e toda pesarosa, disse:
-Ô meu filho, leva esse cachorro embora, ele não gostou daqui não, ele não se deu com a gente não.
Foi nesse momento que todo mundo começou a rir e ela percebeu que estávamos brincando. No mesmo instante virou-se pra mim:
-Mas, Risomar, como tiveste coragem de fazer isso com tua mãe!
E não resistindo à comicidade da situação, olhou de novo pro cachorro e comentou:
-E num é que ele é até bonitinho!. –..E começou a rir conosco..
(*) Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora, autora de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e José Louzeiro. Militante contra a última ditadura militar no Brasil.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Carta a um jovem poeta, por Talis Andrade
Talis Andrade (*)
Um livro de poesia sagrado livro
livre das mãos sacrílegas
e das fogueiras da Santa Inquisição
Livre das traças
da decomposição das folhas mortas
da putrefação pelo mofo -
o bolor do tempo
O verdadeiro livro passa de mão e mão
na leitura diária confortadora e amante
Inadmissível fique fechado empoeirado
ocupando rico espaço em uma estante
(Do livro “Vôo de Pássaro no Azul”).
(*) Jornalista, dirigiu os jornais “Diário da Noite”, “Jornal do Comércio” (Recife), “Jornal da Semana” (Recife) e “A República” (Natal). Poeta, tem 12 livros publicados
Um livro de poesia sagrado livro
livre das mãos sacrílegas
e das fogueiras da Santa Inquisição
Livre das traças
da decomposição das folhas mortas
da putrefação pelo mofo -
o bolor do tempo
O verdadeiro livro passa de mão e mão
na leitura diária confortadora e amante
Inadmissível fique fechado empoeirado
ocupando rico espaço em uma estante
(Do livro “Vôo de Pássaro no Azul”).
(*) Jornalista, dirigiu os jornais “Diário da Noite”, “Jornal do Comércio” (Recife), “Jornal da Semana” (Recife) e “A República” (Natal). Poeta, tem 12 livros publicados
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Possibilidades, por Eduardo Pragmácio Filho
Eduardo Pragmácio Filho (*)
Um cardápio de sonhos
aberto sobre a mesa
redonda e invisível,
onde o alimento é palavra,
possível chão ou precipício.
A escolha é dolorosa
e dela parte uma distância insalubre.
É como flutuar
sobre um mar de medos
a espera da queda.
É onde os pés afundam,
nas dunas
que se movem na palidez
dos ventos
(Do livro “Oblívio da ilusão”, Editora Imprece – Impressora do Ceará – Edições Poetária – Fortaleza/CE).
(*) Poeta de Fortaleza/CE.
Um cardápio de sonhos
aberto sobre a mesa
redonda e invisível,
onde o alimento é palavra,
possível chão ou precipício.
A escolha é dolorosa
e dela parte uma distância insalubre.
É como flutuar
sobre um mar de medos
a espera da queda.
É onde os pés afundam,
nas dunas
que se movem na palidez
dos ventos
(Do livro “Oblívio da ilusão”, Editora Imprece – Impressora do Ceará – Edições Poetária – Fortaleza/CE).
(*) Poeta de Fortaleza/CE.
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
Era pó, mas sangrou-lhe o destino, por Eduardo Murta
Era pó, mas sangrou-lhe o destino, por Eduardo Murta
Eduardo Murta (*)
Há um odor furtivo de sangue marejando às memórias de Jurema. Num vaivém de quem jamais soubera, ao certo, se tinha mais medo de viver ou de morrer. Menina ainda, topara com aquele sentimento ambíguo: o de que lhe faltava luz nesse plano terreno, mas sob a torta convicção de que a escuridão, para além desses muros, seria assustadora. Assim, o tanto que lhe minguava em coragem para resistir era a mesma medida do temor em desconectar-se de vez do mundo.
Talvez tenha nascido aí o fascínio – ou a entrega – pelas experiências que invariavelmente roçavam o limite. Aos 12, ter-se inscrito e sido aceita no papel de tratadora oficial de leões e tigres do zoológico local. Há os que não creem, mas dela se conta passeando nas jaulas, acarinhando os animais. Detalhes preciosos: olhos fechados, e cantando canções de Natal, inda que Carnaval fosse.
Dois anos de ofício, nenhum arranhão sequer, e se convertera em fenômeno nacional. Mais tarde, em caso mundial. E a exposição meteórica, no fundo, lhe embrulhava o estômago. Como a revelasse nua, expusesse fraquezas. Foi se afastando e, numa tarde despretensiosa, partiu sem deixar rastros. Difícil seria resistir a qualquer coisa que desafiasse os manuais de sobrevivência.
Não é que Jurema, o corpo moreno já tomando formas de mulher, se pôs em maiô com lantejoulas para virar atração em circo mambembe! Cinco segundos de suspense, os tambores rufando, e os holofotes ao picadeiro. Vejam ela cruzar, em sombrinha cor de rosa, os 50 metros de corda bamba. Nenhuma rede de proteção abaixo.
Breve haveria morte. De outros, tragados em pura ansiedade. Duas doninhas, um velhinho e até um menino fraquejariam de coração, ela de ponta cabeça, uma só mão no apoio. Foi o bastante a que suspendesse as sessões e se recolhesse ao banzo do isolamento. Durou pouco. Logo estaria serpenteando de novo o fio da navalha: agora no papel de garota do atirador de facas. Um homem cego.
Ambrósio, mestre nos sentidos que lhe restavam intactos, se guiava pelo som da cabeleira de Jurema cortando o vento, fixada à tábua giratória. E pelo perfume lhe exalando aos poros juvenis. Aroma rascante. Lançava, e as lâminas se cravavam a milímetros da orelha, a um dedo da axila esquerda.
Naquela noite, os cenários em preparação, lhe visitou um súbito sentimento de que era hora de pôr ponto final àquilo. Hesitou uma vez mais entre fugir ou mergulhar nos vãos em que só vislumbrava trevas. Foi ao palco careca. Desperfumada. Desarmou as bússolas de Ambrósio. Ele, sem chão, relutou. Suspirou. Mas não desistiu. Fez sete disparos mais que às cegas. Errou. Melhor: acertou. Só um sangue breve à têmpora direita, de raspão e nada além.
Golpeara em cheio o medo cristalizado em Jurema. Resumira dilemas a pó, em iluminada catarse. Ela chora ao lembrar, e a meninada gargalha, ao ouvir-lhe a história como voluntária na ala de pacientes terminais. Aos 113 anos, tudo lhe soando claro, absoluto. Era mulher definitivamente condenada a viver.
(*) Jornalista, autor de "Tantas Histórias. Pessoas Tantas", livro lançado em maio de 2006, que reúne 50 crônicas selecionadas publicadas na imprensa. É secretário de Redação do jornal Hoje em Dia, diário de Belo Horizonte. Já teve passagens também pelos jornais Diário de Minas e Estado de Minas, além de Folha de S.Paulo e revista Veja. É um dos colunistas do Hoje em Dia (www.hojeemdia.com.br), onde publica às quartas-feiras.
Eduardo Murta (*)
Há um odor furtivo de sangue marejando às memórias de Jurema. Num vaivém de quem jamais soubera, ao certo, se tinha mais medo de viver ou de morrer. Menina ainda, topara com aquele sentimento ambíguo: o de que lhe faltava luz nesse plano terreno, mas sob a torta convicção de que a escuridão, para além desses muros, seria assustadora. Assim, o tanto que lhe minguava em coragem para resistir era a mesma medida do temor em desconectar-se de vez do mundo.
Talvez tenha nascido aí o fascínio – ou a entrega – pelas experiências que invariavelmente roçavam o limite. Aos 12, ter-se inscrito e sido aceita no papel de tratadora oficial de leões e tigres do zoológico local. Há os que não creem, mas dela se conta passeando nas jaulas, acarinhando os animais. Detalhes preciosos: olhos fechados, e cantando canções de Natal, inda que Carnaval fosse.
Dois anos de ofício, nenhum arranhão sequer, e se convertera em fenômeno nacional. Mais tarde, em caso mundial. E a exposição meteórica, no fundo, lhe embrulhava o estômago. Como a revelasse nua, expusesse fraquezas. Foi se afastando e, numa tarde despretensiosa, partiu sem deixar rastros. Difícil seria resistir a qualquer coisa que desafiasse os manuais de sobrevivência.
Não é que Jurema, o corpo moreno já tomando formas de mulher, se pôs em maiô com lantejoulas para virar atração em circo mambembe! Cinco segundos de suspense, os tambores rufando, e os holofotes ao picadeiro. Vejam ela cruzar, em sombrinha cor de rosa, os 50 metros de corda bamba. Nenhuma rede de proteção abaixo.
Breve haveria morte. De outros, tragados em pura ansiedade. Duas doninhas, um velhinho e até um menino fraquejariam de coração, ela de ponta cabeça, uma só mão no apoio. Foi o bastante a que suspendesse as sessões e se recolhesse ao banzo do isolamento. Durou pouco. Logo estaria serpenteando de novo o fio da navalha: agora no papel de garota do atirador de facas. Um homem cego.
Ambrósio, mestre nos sentidos que lhe restavam intactos, se guiava pelo som da cabeleira de Jurema cortando o vento, fixada à tábua giratória. E pelo perfume lhe exalando aos poros juvenis. Aroma rascante. Lançava, e as lâminas se cravavam a milímetros da orelha, a um dedo da axila esquerda.
Naquela noite, os cenários em preparação, lhe visitou um súbito sentimento de que era hora de pôr ponto final àquilo. Hesitou uma vez mais entre fugir ou mergulhar nos vãos em que só vislumbrava trevas. Foi ao palco careca. Desperfumada. Desarmou as bússolas de Ambrósio. Ele, sem chão, relutou. Suspirou. Mas não desistiu. Fez sete disparos mais que às cegas. Errou. Melhor: acertou. Só um sangue breve à têmpora direita, de raspão e nada além.
Golpeara em cheio o medo cristalizado em Jurema. Resumira dilemas a pó, em iluminada catarse. Ela chora ao lembrar, e a meninada gargalha, ao ouvir-lhe a história como voluntária na ala de pacientes terminais. Aos 113 anos, tudo lhe soando claro, absoluto. Era mulher definitivamente condenada a viver.
(*) Jornalista, autor de "Tantas Histórias. Pessoas Tantas", livro lançado em maio de 2006, que reúne 50 crônicas selecionadas publicadas na imprensa. É secretário de Redação do jornal Hoje em Dia, diário de Belo Horizonte. Já teve passagens também pelos jornais Diário de Minas e Estado de Minas, além de Folha de S.Paulo e revista Veja. É um dos colunistas do Hoje em Dia (www.hojeemdia.com.br), onde publica às quartas-feiras.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Bom princípio, por Marcelo Sguassábia
Marcelo Sguassábia (*)
Sou o seu leiturista de água. Você não me vê nunca eu nem bato na porta nem nada, mas eu leio direitinho o seu relójo uma vez por mês e sou amigão dos cachorro, trato tudo eles que nem gente. A caixinha de natal é o momento cristão e bem-vinda de coração e alem do mais ajuda na leitura certa o resto do ano. Data da próxima leitura e entrega do ano bom: dezessete do corrente, tenho o crachá pessa que eu mostro. Agradecido Zezão em ritimo de gingobel
********
Não se confunda com outros que fazem passar-se por nós, os seus lixeiros de todos os dias inclusive feriado e finado. Por isso pedimos e meressemos o bom princípio. Somos os lejítimos Janelson, Totonho, Rudisson e Rixacleiderman (o popular Rixa). Se outros baterem, faça que não escuta e espere nós passar (lembramos que passaremos dia 23 de manhã como costume).
********
Desejamos um feliz natal
E um ano novo muito agradável
São estes os sinceros votos
dos seus coletores de lixo reciclável
Não se esqueça do nosso bom princípio. Faremos a coleta amanhã.
********
O senhor ja parou pra pensar, bem como sua(s) dignissima(s) família(s), como seria sua vida sem ver as oferta do supermercado e do varejão, pois é muito sem graça que seria sem os folheto que eu deixo na caixa de correspondença. Fico feliz com o presente vosso pode ser moeda.
********
A boa notícia pra mim vai ser receber uma caixinha bem gorda. Conto com você do mesmo jeito que você conta comigo pra receber o seu jornal de todos dia.
Ari, o entregador
********
Fui eu que cubri as féria do Ari, no mês 6 do corrente. Espero ganhar pelo menos o valor de um doze avo do tanto que você vai dar pra ele. Esse é o desejo do Jonas, o entregador que vem no lugar do Ari nas féria e tamem quando ele bebe muito e não concegue levantar cedo.
********
Sou o dono da gráfica rápida que fez os cartões. Espero que o ano que se inicia comece magnífico e termine espetacular e aproveitamos o ensejo para divulgar que o milheiro de cartão de visita está em promoção especial de 49,90 obrigado.
(*) Redator publicitário há mais de 20 anos, cronista de várias revistas eletrônicas, entre as quais a “Paradoxo”
Sou o seu leiturista de água. Você não me vê nunca eu nem bato na porta nem nada, mas eu leio direitinho o seu relójo uma vez por mês e sou amigão dos cachorro, trato tudo eles que nem gente. A caixinha de natal é o momento cristão e bem-vinda de coração e alem do mais ajuda na leitura certa o resto do ano. Data da próxima leitura e entrega do ano bom: dezessete do corrente, tenho o crachá pessa que eu mostro. Agradecido Zezão em ritimo de gingobel
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Não se confunda com outros que fazem passar-se por nós, os seus lixeiros de todos os dias inclusive feriado e finado. Por isso pedimos e meressemos o bom princípio. Somos os lejítimos Janelson, Totonho, Rudisson e Rixacleiderman (o popular Rixa). Se outros baterem, faça que não escuta e espere nós passar (lembramos que passaremos dia 23 de manhã como costume).
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Desejamos um feliz natal
E um ano novo muito agradável
São estes os sinceros votos
dos seus coletores de lixo reciclável
Não se esqueça do nosso bom princípio. Faremos a coleta amanhã.
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O senhor ja parou pra pensar, bem como sua(s) dignissima(s) família(s), como seria sua vida sem ver as oferta do supermercado e do varejão, pois é muito sem graça que seria sem os folheto que eu deixo na caixa de correspondença. Fico feliz com o presente vosso pode ser moeda.
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A boa notícia pra mim vai ser receber uma caixinha bem gorda. Conto com você do mesmo jeito que você conta comigo pra receber o seu jornal de todos dia.
Ari, o entregador
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Fui eu que cubri as féria do Ari, no mês 6 do corrente. Espero ganhar pelo menos o valor de um doze avo do tanto que você vai dar pra ele. Esse é o desejo do Jonas, o entregador que vem no lugar do Ari nas féria e tamem quando ele bebe muito e não concegue levantar cedo.
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Sou o dono da gráfica rápida que fez os cartões. Espero que o ano que se inicia comece magnífico e termine espetacular e aproveitamos o ensejo para divulgar que o milheiro de cartão de visita está em promoção especial de 49,90 obrigado.
(*) Redator publicitário há mais de 20 anos, cronista de várias revistas eletrônicas, entre as quais a “Paradoxo”
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