quarta-feira, 30 de julho de 2008

Conhecemos e depois desconhecemos, por Débora Santos

Débora Santos (*)



Loucura talvez! Estranho, acho que seria a pronúncia correta. De repente, alguém aparece na sua vida, lhe conquista, lhe envolve, lhe seduz como um amante perfeito.

Palavras doces saem da boca do amor perfeito, oras... Amor perfeito? Quem disse isto? Exatamente assim, as palavras também saem de sua boca, de uma hora para outra, aquela pessoa se torna a mais maravilhosa do mundo, melhor que o ex e, provavelmente, melhor do que qualquer outro.

Ligações, torpedos, orkut e msn – nossa! Um não pode viver sem se comunicar com o outro. A coisa caminha mais ou menos assim: beijos, carícias, brincadeirinhas, e depois, mesmo depois do encontro – o telefone toca, você olha no identificador de chamadas e lá está o nome do dito cujo, atende com um sorriso que vai de orelha a orelha, mais ou menos assim:

"- Oi amoooorrrrrrrr! Tudo bem? Você chegou bem?

- Oi meu docinho, cheguei. Não vai me dizer que já estava dormindo?

- Não amore, para você sempre tenho tempo!

- Eu também, sempre terei tempo e desejo para falar com você!

- Estou morrendo de saudades!

- Eu também!

- Adorei tudo o que fizemos hoje!

- Também adorei, não vejo a hora de vê-lo novamente!

- Bom, vamos dormir, né!

- É mesmo, amanhã temos que trabalhar, um beijo e sonha comigo!

- Beijuuuuussssssss e sonha comigo também!"

O tempo passa, vocês vão se conhecendo, claro! Você acredita que conhece tudo da pessoa, chega a pensar: “Nossa! Realmente encontrei o amor da minha vida”.

O tempo urge e como urge... Algumas coisas vão ficando chatas, aquelas manias que eram despercebíveis no começo, agora passam a atormentar. Depois de algum tempo, as coisas vão piorando, aquela pessoa vai ficando distante, mesmo assim, você acha que tudo vai melhorar.

Torpedo, nem pensar, a desculpa é que a conta do mês passado veio alta demais; orkut, aiaiai... que orkut? E no msn, aquelas frases bonitas e melosas se transformam em: “oi, vc td bem? Akí ta osso, mto trampo, vlw! Bj”. Você lê e se pergunta: “tá osso? Como assim? Ele agora trabalha numa fábrica de botões ou num frigorífico?” E isso quando está com o ícone de ocupado ou ausente. Depois offline é o seu nome!

Um dia liga, no outro nem sinal de fumaça. Mas, continua a pensar que é uma fase, os encontros vão diminuindo, os telefonemas também. E quando liga é para dizer que não poderá comparecer ao encontro. Depois, o telefone morre, ou seja, não liga para ao menos dizer: “Ô coisa do outro mundo, não poderei comparecer hoje, ok!” Nada, inércia da inércia.

Até que o juízo final chega. Ah! Como chega! O bofe tudo de bom que você achava que conhecia e comentava para as amigas, acaba se tornando um encosto, deixa você no descontrole total. As suas amigas pedem ajuda até para os búzios. Você de qualquer forma quer entender o que passa na cabeça do seu "amor", pensa que poderá mudá-lo, santa inocência, Batman!

No final, você acaba percebendo que aquela pessoa é totalmente outra, o corpo permanece o mesmo, no entanto, a mente e o coração dele partiram e partiu junto o seu coração.

* Jornalista.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

O tombo, por Rodrigo Ramazzini

Rodrigo Ramazzini(*)



Era uma quarta-feira. Estava em meu horário de almoço. Havia passado em uma loja de conveniências e comprado alguns chicletes. Depois do almoço sempre é bom mascar chicletes. Descascava um ao lado de uma lixeira pública. Sabe como é, consciência ambiental, embalagem no lixo, coisa e tal. Lutava contra a grudada embalagem do chiclete quando avistei, do outro lado da rua, vindo em sentido contrário, uma linda morena de cabelos lisos esvoaçantes. Cabelos iguais a dessas modelos de propaganda de xampu. Caminhava com um charmoso bailar dos quadris, e a leve brisa que soprava naquele dia, associada aos belos raios de sol, fazia com que os cabelos irradiassem um brilho especial, movimentando-se de um lado a outro dos ombros.

Como se não bastasse tudo isso, a bela morena chamava a atenção, também, por estar toda de preto. Bota, calça coladinha, e uma blusa que contornava os fartos seios e a fina cintura. Um visual “mulher fatal”.

Fiquei a admirar a morena que desfilava em frente aos meus olhos, enquanto descascava o chiclete, pensando de forma politicamente correta, como era bela aquela mulher. Foi então que ouvi, saindo de uma construção próxima, de um dentre os vários trabalhadores da obra, o grito que materializava os meus pensamentos:
- Oh gostosa! Gostosa! Peraí morena!... Aonde vai com tanta presa?

A morena (como todas as mulheres nesta situação) encheu-se de orgulho e auto-estima. Vi em seu rosto o leve sorrisinho de satisfação. Passou a mão no cabelo e seguiu de peito estufado e bunda empinada, caprichando no bailar dos quadris. Como um mero espectador da vida cotidiana, assisti a mais essa cena, pensei “tem razão o cara!” e já estava de saída, pois finalmente conseguira abrir o chiclete e colocar a embalagem no lixo, quando o destino aprontou.

Sob o olhar atento da turma de trabalhadores, a morena caminhou por alguns metros com a sua bota de fino salto, e por descuido, na calçada defeituosa, colocou o salto em um buraco e torceu o pé esquerdo. Mesmo com toda a habilidade e swing, a morena não conseguiu evitar a queda. Caiu em câmera lenta, como se diz, batendo com um dos joelhos no chão.

Um silêncio pairou no ar. Meu, dos trabalhadores da construção, e do restante da rua que viu o tombo. Teria a morena se machucado? A resposta veio com o seu rápido levantar. E antes que ela recomeçasse a caminhar, da mesma construção anterior, não perdoando nem mesmo a bela morena de cabelos de propaganda de xampu, veio o grito, sepultando a pior sentença possível nesta situação:
- Oooh boca-aberta!

(*) Jornalista e cronista.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Bárbara tardia, por Marcelo Sguassábia

Marcelo Sguassábia(*)



Assim seja. Sob a névoa da alfazema e a providencial intercessão dos santos, amém a tudo e a todos – aflições, alívios, destemperos, calmarias. Haveria mesmo de chegar a hora e a idade em que o melhor era aceitar tudo. Desse jeito tinha de ser um dia.

Fechou a porta do oratório, caminhou até a sala e tirou da estante um livro que nada tinha a ver com o seu estado. Acendeu a lareira, abriu um vinho, sentou-se. O coração quieto, o ouvido atento ao crepitar da lenha, nunca esteve tão disposto a colocar alinhadinhos cada um dos pensamentos. Gostava do domínio linear das coisas, de dar ordenamento e organização a tudo. Tentou ler. Via as palavras sem captar direito seu sentido. Poderia ligar o aparelho e ouvir alguma música, mas não se atrevia a pôr de pé seu ser plasmado na poltrona. Era a isso que se reduzia, uma vida fossilizada naquele ermo pastoril. O vento chicoteando a vidraça, as xícaras tremulando, o pó se acumulando sobre a farta biblioteca que seu pai deixou. Do Pequeno Príncipe a Sófocles. O cachorro se achega e se amontoa aos seus pés, aproveitando uma beirinha de manta. O vinho ia aos poucos laceando o raciocínio, dando corda aos devaneios. Viu o seu reflexo, distorcido, na prataria de família. Parecia uma figura de Modigliani. Acima da lareira jazia o retrato do avô com seu olhar de Torquemada, a ditar cânones e a citar genealogias.

Bárbara devia estar a caminho, disse que vinha sem falta. No oco daquele silêncio, escutaria de longe o carro quando estivesse chegando. Era uma doida, mesmo. Ria e falava alto pelos corredores longos e ecoantes do hotel onde tantas vezes se encontraram. Gostava dos escândalos, não tinha meias medidas, tudo precisava ser muito, intensamente e quando bem entendesse. Sempre foi assim, aprendeu a aceitá-la e a desejá-la sobretudo por aqueles seus defeitos. Ele próprio talvez fosse o maior defeito dela. Daqui a pouco o cachorro sairia dos seus pés e correria até a porteira, fazendo festa para a velha conhecida. Ela viria fresca, como se tivesse acabado de sair do banho. Mesmo depois das seis horas de viagem. Mesmo com as rugas vincando e o estrógeno já escasso. Mesmo com o bom senso dos parentes e amigos dizendo que não, que era loucura.

Segunda taça, já pela metade. Roía as unhas, Bárbara não chegava. Puxou o cordão, deixou semi-aberta a persiana. E pelas frestas iam passando novelos de muitas meadas, a se perderem em labirintos de hera. Sentia o ranger de uma roldana enferrujada em sua cabeça, que ia tirando devagar as querenças e desafetos do seu poço. Matar a sede não matava, mas revolvia a água parada – o que já era alguma coisa. Que pensamentos alinhadinhos, que nada. Ao olhar para as estrelas, deu um giro e perdeu o eixo. Só não caiu pois se agarrou com toda força num poema de Pessoa. Olhou o relógio: dez para as oito nos algarismos romanos dos cebolões, dos carrilhões dos mosteiros, dos cucos das tias velhas, dos digitais made in China. É isso, pensava ele, a única maneira da passagem do tempo ser de alguma forma bela: através dos lindos mostradores de relógio.

Bárbara sofreu, sim. Teve que se virar como pôde depois da morte do marido. Foi de repente, um assalto no semáforo. Nunca desconfiou de nada, o coitado. Acreditava que as saídas dela eram mesmo a trabalho. Crédulo demais. Imagina se ela, bibliotecária de órgão público, precisava viajar tanto. Nas tardes vazias do ofício foi que cismou de escrever. E escrevia escorreitamente, deitava no papel o que vinha à cabeça, sem caprichos de coesão, estilo ou nexo. Prosa desordenada, sempre em primeira pessoa. Às vezes mostrava a ele o que fazia. Não gostava nem desgostava. Sorria, de vez em quando elogiava, logo mudava de assunto, sugeria a volta pra cama.

Ele nunca quis escrever. Passava muito bem sem nenhuma idéia em mente. Durante alguns anos teve um diário. Cadernos que mantinha escondidos, depois relidos e prudentemente queimados. Pensava naqueles sujeitos todos, escritores que às vezes via em entrevistas na televisão, falando de inspiração e compulsão pela escrita, em anotar idéias nos guardanapos de restaurante, em ter insights fazendo a barba e outros clichês.

Elcius latiu e abanou o rabo. Era Bárbara que chegava, junto com Veridiana. Da cozinha, um cheiro bom de bolinho de chuva. Foram entrando sem bater à porta, Elcius se enfiando entre suas pernas. As botas de salto altíssimo batendo nos lajotões. A Bárbara de sempre, imperativa e dominadora, dando ordens aos criados. Há muito não via Veridiana. Uns quatro anos mais nova que eles, observava com atenção cada detalhe da sala, pondo e tirando compulsivamente os óculos ovais. Enfim cedia aos insistentes convites de conhecer a estância.

Passava de meia-noite quando se recolheram. No leito, virando de um lado para o outro, a roldana enferrujada não parava de ranger. O barulho acordou as duas, no quarto ao lado. Não, não estava acontecendo. Bárbara e Veridiana, diáfanas e seminuas à sua frente. E não era sonho, tampouco efeito do vinho. Na manhã seguinte, contritos, foram os três ao oratório.

(*) Redator publicitário há mais de 20 anos, cronista de várias revistas eletrônicas, entre as quais a “Paradoxo”.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

O homem sozinho, por Celamar Maione

Celamar Maione(*)



Domingo de sol. Jairo olhou o relógio: 6 da manhã. Hora da caminhada no calçadão. Mesmo domingo não conseguia dormir até mais tarde. Levantou-se da cama, se espreguiçando. Colocou o café para fazer. Enquanto isso, foi ao banheiro, escovou os dentes, fez a barba e jogou uma água fria pelo corpo. Vestiu a bermuda que estava em cima do sofá do quarto, penteou os cabelos,.colocou as meias, em seguida os tênis.

Fez um rápido alongamento. Em seguida, voltou para a cozinha e viu o que tinha para comer na geladeira. Pensou na empregada. Ela precisava fazer compras durante a semana. Falaria com ela amanhã. Pegou um pedaço de queijo, colocou café no copo, comeu com prazer sua primeira refeição do dia.

Em seguida, o telefone tocou. Era a mãe para saber se Jairo ainda estava vivo. Falou com a mãe e foi fazer sua caminhada. Óculos escuros. Boné. Olhava as mulheres com biquínis mais ousados. Só isso. Apenas olhava. Acabou a caminhada e passou na banca de jornal. Conversou um pouco com o jornaleiro, deu uma olhada em todos os jornais. Levou um só. Pegou também uma revista semanal. Deixou o troco com o jornaleiro. Despediu-se.

Aproveitou e foi até a padaria. Comprou um frango assado para comer na hora do almoço. Chegou em casa e leu o jornal de ponta a ponta. Em seguida, pegou a revista, passou os olhos e almoçou. Já passava das duas da tarde. O almoço foi rápido. Aliás, era sempre assim. Gostava de tudo fácil e prático. Não queria perder tempo. Era um bom profissional.

Costumava articular seus passos. Tudo era medido, cronometrado. Nada podia falhar. Depois do almoço, relaxou. Nada como um copo de whisky com gelo. Ouviu um CD de músicas clássicas. Era, na verdade, o único dia que tirava para não pensar em trabalho. Domingo era sagrado. Seguia uma rotina, mas diferente da semana.

Até no sábado, levava trabalho para casa, mas domingo, não. Depois do relax dominical, navegava pela Internet. Visitava alguns sites, repassava alguns e-mails e conversava com alguém online no MSN. Qualquer pessoa. Apenas para passar o tempo. “Engraçado”, pensava, “domingo não sabia muito bem o que fazer”.

O apartamento ficava vazio demais. Mas era bom. Não conseguia imaginar uma mulher fazendo cobranças e nem crianças gritando. Ficava arrepiado só de pensar. O tempo passou rápido. Oito da noite. Fez um lanche. Ligou a TV. Nada de interessante. Pegou um DVD. Assistiu ao filme quase dormindo. Passava das 10 da noite. Levantou do sofá da sala, assustado. Foi para o quarto e arrumou meticulosamente a calça, a camisa social, a gravata e o paletó para o dia seguinte. Foi dormir feliz. Segunda-feira estaria de volta ao escritório .

Pensou nas muitas reuniões que tinha pela frente. Dormiu excitado!

(*) Radialista e jornalista, trabalhou como produtora, repórter e redatora nas Rádios Fm O DIA, Tropical e Rádio Globo. Foi Produtora-Executiva da Rádio Tupi. Lecionou Telemarketing, atendimento ao público e comportamento do Operador , mas sua paixão é escrever, notadamente poesias e contos.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Utilidade de Deus, por Daniel Santos

Daniel Santos(*)



Após violarem o lacre de documentos iniciais, homens de pesados hábitos marrons não mais se entreolharam, e não só pela vergonha de traírem o que era fundamento: urgia limpar a sujeira sem deixar vestígios.

Os que até então se diziam pios desceram o capuz até os olhos para não se identificarem durante a consagração da sociedade, pois facínoras preservam-se no anonimato, onde a Lei troa vã sem vingar seus ecos.

Apressaram-se, pois, pelos pátios e corredores do templo inaugural, desceram a arca de cedro até a mais funda cisterna, onde a masmorra aguardava Quem àquela hora deveria estar pelas ruas ao alcance de todos.

Mas não, lá não estaria mais, nunca mais. Seus donos tinham outros planos. Pretendiam poupá-Lo para que vigorasse, se possível, por toda a eternidade e lhes abarrotasse, assim, dia após dia, a sacolinha do dízimo.

Por isso, foi tudo muito rápido, e logo depositaram a arca onde as águas primeiras porejavam. Rápido, sim, antes que alguém da rua ouvisse o Deus vencido implorar a Seus patrões que O devolvessem ao caos.

(*) Jornalista carioca. Trabalhou como repórter e redator nas sucursais de "O Estado de São Paulo" e da "Folha de São Paulo", no Rio de Janeiro, além de "O Globo". Publicou "A filha imperfeita" (poesia, 1995, Editora Arte de Ler) e "Pássaros da mesma gaiola" (contos, 2002, Editora Bruxedo). Com o romance "Ma negresse", ganhou da Biblioteca Nacional uma bolsa para obras em fase de conclusão, em 2001.

sábado, 19 de julho de 2008

Umas e outras, por Wagner Ribeiro

Wagner Ribeiro(*)



"O acaso faz com que essas duas
Que a sorte sempre separou
Se cruzem pela mesma rua
Olhando-se com a mesma dor"
(Chico Buarque, "Umas e Outras")

Cristina dos Santos Cavalcante residia num bairro pobre da zona Leste paulistana, a uns 15 quilômetros do Centro. Tinha 29 anos e esperava sua segunda criança.

Fez o pré-natal na Unidade Básica de Saúde do Jardim Independência, da rede municipal. O nascimento do filho estava previsto para o dia 15 de junho.

A data chegou, passou... e nada. Então, recorreu ao Hospital Estadual de Vila Alpina. Mas, em cada consulta, diziam-lhe que estava tudo normal e deveria voltar dentro de dois dias.

Apesar de suas precárias condições financeiras, ela pagou por um ultra-som numa clínica particular. O exame revelou que o cordão umbilical tinha dado duas voltas no pescoço da criança.

Levou o laudo na consulta seguinte, às 9 horas do dia 27 de junho, sendo internada imediatamente.

Em vez de efetuarem logo uma cesárea, deram-lhe medicamentos para induzir o parto normal, que acabou ocorrendo somente às 23h20.

Cristina teve então hemorragia e não havia médico capacitado para dar-lhe o atendimento correto. Os jovens residentes tiveram de chamar “um especialista”. Quando este finalmente chegou, não havia vaga para Cristina na UTI.

Quarenta minutos depois (!), levaram-na a uma sala de observação (!!), na qual não havia equipamento nenhum. E foi lá que ela morreu, seis horas depois do parto.

Parte desse tempo foi desperdiçada com a repetição de exames de sangue que a paciente já fizera no mesmo hospital – como se, no momento da emergência, não houvesse a certeza de que o tipo sanguíneo dela fosse aquele que constava da sua ficha.

Segundo o viúvo, Márcio Ferreira da Costa, a primogênita já nascera por meio de cesariana, "o que mostra que já não era muito aconselhável fazer o parto normal desta vez”. E acrescentou: “Ela não tinha nada de dilatação. Minha mulher tinha a cintura muito fina e o neném nasceu com quase 4 quilos. Chegando na parte do ombro, o bebê travou e ficou cerca de 5 minutos sem respirar. Ao nascer, nem chorou, foi direto para os aparelhos.

O hospital registrou a morte como “natural” no 56° Distrito Policial – Vila Alpina. O resgate (oportuno e justificado) de Ingrid Betancourt mobilizou três governos e foi assunto da semana na grande imprensa paulista.

A morte (desnecessária e inaceitável) de Cristina dos Santos Cavalcante não comoveu governo nenhum nem interessou à grande imprensa paulista. Eu só soube dela graças a um valoroso jornal de bairro (a Folha de Vila Prudente) e a um repórter (Rafael Gonçalo) ainda dotado do senso de justiça que deveria ser inerente à nossa profissão.

E só posso fazer o que estou fazendo: compartilhar minha indignação com os leitores, na esperança de que pelo menos alguns percam uns minutinhos enviando e-mails às autoridades, à imprensa e aos amigos.

Depende de nós fazermos com que Cristina dos Santos Cavalcante não tenha morrido em vão, como tantas outras Cristinas de nosso povo sofrido e injustiçado.

* Jornalista.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Da janela vê-se a eternidade, por Eduardo Murta

Eduardo Murta(*)



A vida de Godofredo estava por um fio. Não era a primeira vez, mas o episódio desta manhã sugeria uma gravidade ausente nos outros acontecimentos. Só sugeria, porque ele, e ninguém mais, é quem bem sabia da coleção de circunstâncias em que o odor da morte bafejara-lhe do calcanhar ao espírito. E escapara ileso. Se agora parecia diferente, se resumia aos olhos dos outros.

Foi assim que um vizinho, apartamento de frente, deu o alarme. Ponteiros em 6h15, estágio ainda de cobertas, flagrou Godofredo emparedado à marquise do prédio. Corpo franzino. Soava triste. Sem saída. Um “ai, meu Deus, ele vai cair do vigésimo-terceiro andar” alertou bombeiros e despertou a família. Num segundo, Vó Felícia, Nina, pijama à 14 anos, e Joana, camisola cinqüentona, eram síntese de pavor aos janelões do edifício.

Seguro que não haviam se definhado tanto em choro e desespero em toda sua existência. Que não esperasse, a platéia, reação fria codificada em manuais de emergência. Os gritos, percebam os ecos, eram ouvidos lá de baixo, onde cordão de curiosos foi se juntando aos sinais mornos de sirene. E, desgraça alheia, em instantes surgiu o bolão de apostas: se corpo no asfalto, se bendito salvamento.

Para a gente da casa, era dor que régua e compasso algum mediriam. Nina se dissolvendo em espasmos de pranto, vó intercalando apelos sedosos a súplicas doídas, e Joana, silêncio circunspeto, na fé de que, ele deixando os olhares se cruzarem, caminharia para seus braços. Godofredo ali, impassível, indiferente. Lembrava estatuetas de porcelana.

Esboçou o primeiro movimento em direção à família à voz da menina lhe invocando. Torceu a cabeça, giro manso, e não foi além disso. Repetiu o gesto, porém – o pânico em tom mais grave – dividindo aquelas miradas longas com o curso que o separava do parapeito ao ponto final, lá embaixo. Tão-somente contemplava, sem emitir ruído sequer, sem esboçar pedido de socorro. A garota implorando que compreendesse, que reconhecia suas crises de adolescente (quantas vezes o jogara às paredes, explosiva)...

Soluços entrecortando a fala, Joana viu remédio na emoção. E descreveu o dia em que fora acolhido entre eles. Órfão. Tinha perto da mesma idade de Nina. As fotos registravam. Estava lá: bebezinhos lado a lado. A seu modo, em carícias mútuas. Até cama haviam dividido. E, zelo infantil, precocidade maternal, ela crescera prometendo protegê-lo como a um filho. O chamou por uma, duas, sete vezes. Sem resposta.

Um assombro trespassou-lhe o coração no instante em que campainha e vozerio de bombeiros quebraram o que ela pressupunha como uma chance de diálogo. Sugeriram calma, foram tomando os pontos estratégicos, paramentados. Planos milimetricamente traçados. Um deslize e tudo se perderia. No cuidado essencial, a que não emprestassem a Godofredo sensação de encurralamento, pediram à família que o mantivesse sereno.

As ações foram sincronizadas. A rede, os homens em corda se lançando do andar superior. O corpo agora no vazio. Os gritos. A dúvida. O alívio. Estava salvo. Vó Felícia, Nina e Joana lhe abraçando, todas num pranteado trôpego, quase a moer-lhe os ossos. Sob a súplica de que jurasse que nunca, nunca mais aquilo se daria. Lambeu o primeiro nariz que lhe apareceu à frente. Não tinha como prometer, claro. Porque vida de gatos, aprendera desde os primeiros miados, valeriam um quase nada se não estivessem o tempo todo por um fio. No limite da existência.

(*) Jornalista, autor de "Tantas Histórias. Pessoas Tantas", livro lançado em maio de 2006, que reúne 50 crônicas selecionadas publicadas na imprensa. É secretário de Redação do jornal Hoje em Dia, diário de Belo Horizonte. Já teve passagens também pelos jornais Diário de Minas e Estado de Minas, além de Folha de S.Paulo e revista Veja. É um dos colunistas do Hoje em Dia (www.hojeemdia.com.br), onde publica às quartas-feiras.