Urariano Mota (*)
Era uma negra do cabelo bom, diziam. Qualificavam-na com essa valorização ambígua para realçar o seu gênero de fêmea, como uma ferradura impressa no crânio e na pele. Pois sendo negra, deveria ter o cabelo ruim, como chamavam e chamam o cabelo crespo, pixaim. Apesar de negra, aquela negra tinha um quê de beleza marcada a ferro ao nascer, o cabelo bom, e isso queria dizer, por extensão, que ela possuía boa bunda, coxas grossas, sexo no ponto de se comer. Era uma qualificação digna de uso por vendedores de cavalos, que assim qualificariam os seus dentes alvos, fortes, resistentes, se cavalos sorrissem, como ela.
Aquela negra tinha no cabelo a qualidade das negras de olhos verdes, das negras sararás, tórridas, quentes, que se montam e se cruzam como as cabras que agarradas, abraçadas, dão massagem no pênis com os músculos da vulva.
Para seus familiares, não, aquela negra, aquela fêmea que se fizera puta no conceito de toda a gente, era Elza, gostariam de dizer, mas apenas se referiam a ela por círculos, silêncios constrangidos, elipses, pois ela era a mulher que os cobrira de vergonha. E dizendo-a assim afastavam-se da sua parte ruim, pois se afastavam do seu cabelo bom, que se havia tornado uma qualidade especial de puta. Afastavam-se sem cortar os vínculos, no entanto, pois a ela se sentiam ligados por correntes, contra a própria vontade. Em mais de um sentido, eram seus semelhantes.
Uma das razões ocultas era que Elza não se misturou a um homem branco, ou a um mestiço de pele mais clara, que se assemelhasse a um branco. Tendo o cabelo bom, achou de se casar com um negro igual à sua pele, com o agravo do cabelo pixaim do macho. Está certo, os parentes dela reconheciam, o seu namorado era um rapaz estudioso, que seria um professor, e com isso cumpriam uma lei de perdas e ganhos relativos, ainda que não conhecessem tal lei por palavras faladas ou escritas. Esta era a troca: negro bom, ou de futuro, com mestiça ruim, porque sem grandes aspirações. Mas aqui, nessa troca, ainda não estava a gênese do crime cometido por Elza. O problema começou com o passo seguinte. Como uma surpresa má da lei de compensações relativas, ela, que não era branca, mas era uma fêmea de cabelo bom, casou-se e foi viver com os parentes do marido. Uma casa de 10 quartos, uma longa e comprida casa povoada de negros. Negros, só negros. Na pele, no cabelo, nos costumes, na conjunta perdição. Negros com o cheiro dos ferros na pele e o azinhavre dos metais com que trabalhavam, todos ferreiros, torneiros, mecânicos. Nove famílias de negros em uma só casa. Desse modo, Elza terminara por arrastar os parentes dela até os ancestrais, para os negros negros, e isto muito os avergonhava. O seu cabelo bom de nada adiantara. Ou melhor, ou pior, até que adiantara, porque o seu cabelo foi um componente da sua desgraça.
Abstraída a pujança de mulher saudável, forte, de encher as vistas, que poderia ser anunciada num mercado de escravos como uma negra de pernas sólidas, de colunas graciosamente curvas, de bunda grande, esférica, de Angola, de peitos rijos e bem pronunciados, de boca de lábios grossos, abstraída do seu valor de mercado e de danação, Elza possuía uma qualidade de espírito sob medida para o seu crime. Para melhor punição no mundo, a sua alma branca, mestiça, negra, a sua alma, enfim, era de uma inocência quase primitiva. De uma cor verde, de mato, de selva, se tivesse cor.
A qualidade do seu espírito só a distância, no tempo destas linhas escritas, é percebida. Flor do mandacaru, lembra, pelo desabrochar à noite. Flor de um cacto distante, não vista, de percepção a se formar, porque nos chegam dela relatos muito insensíveis, quase bárbaros, sobre a sua natureza. Como arqueólogos de um ser raro, temos que retirar as faixas sucessivas de incompreensão que cobrem a sua pessoa. É impressionante: pelos mais variados relatos, as percepções dela nos chegam sempre como acontecimentos de sua vida sentimental. Como se o seu sentimento, numa paródia, como se o seu sentimento fosse o seu destino. Como se a sua individualidade, a sua vida, já viesse montada numa seqüência de fatos, sentimentais, numa cadeia de fatos amorosos que só poderiam dar no seu crime. E pedimos aos que nos lêem agora o favor da humildade, para que não lhes fujam da retina os acontecimentos pequenos, que remetem à sua inocência. Evitem o sorriso, aquele, com que sorriam e zombavam dela os conhecedores experientes, os sábios do mundo.
Elza casou com o primeiro namorado. Um irmão dela assim contava um pequeno acontecimento desse namoro. “Uma vez a gente saiu, eu, Elza e Misael, para um cinema. Eu não me lembro do filme. Eu me lembro que ao sair, Misael pagou sorvete pra gente. Não sei se porque achou muito gelado, ou se porque Elza nunca havia provado antes, por que diabo foi, ela mal provou e deixou de lado o sorvete. Ela ficou com vergonha. Então eu disse: venha! Ela era muito besta, não era?”. Ao contar esse fato quase como um ato de bravura, de esperteza, o irmão esquece e deixa em sombra a fome que ambos passavam, o privilégio que era um sorvete nos anos 50, e vê nessa recusa de Elza, sem ver o próprio avanço animal, uma prova de retardamento mental da irmã, quase. “Venha!”. Ele não se constrange de contar isto.
(E penso nesta altura nas pequenas safadezas que todos cometemos um dia, e que nos envergonham por toda uma vida. Lembro agora, enquanto censuro esse homem, as mesquinharias de todos nós. São equivalentes ou bem piores que a contada. São piores no gênero, no geral da infâmia, lembro. Mas no episódio contado, simples, sem pretensão, choca mais o que está por trás das palavras ditas. Esse irmão conheceu o destino posterior da irmã, sabe da punição dura que ela sofreu, sabe da relação entre o namorado e os maus dias vividos por ela, e não a tendo mais junto a si, conta o assalto que deu no alimento que não lhe pertencia como quem conta uma brincadeira, um jogo de memória, de lembrança, para realçar a idiotice da mocinha envergonhada.)
“Venha”, nem precisava da ênfase da exclamação. No chamado já se encontra o lugar de mulher que Elza ocupava. Pois o que é a mulher dos anos 50 senão um ser generoso, só generosidade, que se abre, dá prazer e fornece a vida? Nos peitos, no sexo, no leite, fonte, escrava e mãe, que ao fim é sempre uma vaca que se abate, ou uma árvore que cai, depois do fruto e da semente, o que é essa mulher, a não ser isto? Ela era uma contradição da violência, que se escreve como um paradoxo: Um mundo com mulheres, para nosso gozo e usufruto, mas que seja um mundo sem mulheres, para nosso melhor gozo e usufruto. Uma escrava para nosso prazer, que lhe negamos. Venha, sempre.
Penso agora em uma particular Maria, penso em todas as Marias, penso na Santa Virgem Maria, quando penso em Elza: “Então Maria disse: Minha alma exalta o Senhor, e meu espírito se encheu de júbilo por causa de Deus, meu Salvador, porque ele pôs os olhos sobre a sua humilde serva”. Então Elza, com fome, deixou de lado o sorvete. “Venha”, o irmão disse, e Elza ficou a olhar, cheia de graça. Casou-se com o primeiro namorado, e com o destino, que voou, rápido e insuportavelmente breve.
O pai, homem rude, contava o que foi a estréia da filha no leito nupcial. O pai era um mulato que fazia da brutalidade o conteúdo, o sinal, a própria razão de ser do macho. “Bato num filho como quem bate num inimigo”, dizia. E da filha, que estava abaixo da brutalidade física reservada aos machos, o que diria dela? Numa relação de desconhecimento e desprezo, a filha aparecia-lhe nos momentos mais crus de sexualidade. Esses momentos deveriam ser destruídos, mais que contados, para que ele lhe arrancasse o hímen, ou melhor, deixasse-a sem, como se nunca houvesse existido, porque a sua destruição era um império. Pois a sua filha não seria uma puta, e ter sexo uma filha, para ele, era o mesmo que ser uma puta. O que diria da filha na noite de núpcias? Ele não diria, vale dizer, ele não inventaria os fatos ocorridos. A sua função, como a de todo bom contador de histórias, resumia-se em realçar dos acontecimentos o que mais lhe servisse aos objetivos. A sua diretriz, o peso da mão era certeiro, impactante, como um punch, um soco no queixo, um knock-out, ou como um chute de ponta de bico de metal de sapato no útero da filha. E para isso ele escolhia a ocasião, em noites de festa, aniversários, fins de ano, com a mesa repleta de convidados, presentes a filha e o marido, ele na cabeça da mesa a trovejar com voz de se ouvir nas casas vizinhas:
- Na primeira noite de casamento, Elza mijou na cama!
A filha baixava os olhos, com rubor na face escura, enquanto os risos estouravam, pelo uso do verbo mijar, em lugar do mais educado urinar, pela vergonha imposta à senhora casada, presente, que assim pagava, e sempre, e para sempre a falta de ser filha, não um filho digno de levar uma surra como um inimigo, a falta e o pecado de ter sexo de mulher para levar pica do mundo. Os risos rebentavam também como uma adulação, como um pagamentos dos convidados pela bebida e comida fartas. Não é gratuito dizer que até Elza ria, ria-se, sorria, como uma máscara para evitar o pior que a desonra pública. Sabia lá o que poderia vir do pai bêbado, prepotente, com toda corda e fogo da sua verve? O que seria se ele contasse que na primeira menstruação a filha correra pela sala, a gritar que tivera uma hemorragia, que estava a ponto de morrer? Que seria dela, ali na mesa, se ele achasse da melhor grosseria e comicidade gritar que os trapos e panos íntimos da filha, usados como absorventes, possuíam um cheiro tão forte que eram lavados às ocultas, pela madrugada? Que mais ele diria, com sua calorosa imaginação de vingança, para aviltá-la no sexo, por ter sexo, e ter aquele sexo de fêmea, de puta? O marido, covarde, covardão, também ria às espirituosas revelações do sogro. Não gargalhava mais alto porque seria um despropósito, um desrespeito ao chefe da casa, ao meio-dono da esposa. Misael sorria a meio rir, sorria educadamente, com a simpatia mais fingida dos seus olhos rasgados e negros, como a perguntar, enquanto mostrava os dentes, “O senhor, o senhor, quem pode com o senhor?”. Misael sorria também porque, por vias indiretas, era proclamado publicamente em sua macheza. Pois que membro tão vigoroso seria este que fez uma negra robusta mijar-se na cama?
É interessante notar que a urina de Elza não era contada como um gozo, como uma chuva de orgasmo, ou como uma reação de dor, do rasgar-se de dor um hímen rompido à ponta de ferro. A urina, o mijo de Elza, era apenas uma prova do quanto ela era desajeitada, inábil, em cenas e atos de sexo. Tão estúpida era que se mijava, em vez de sangrar. Em lugar do sangue, urina, como os comediantes que em lugar de comer recebem tortas pela cara, ou tão cômica quanto um adulto que em público usasse fralda e mamadeira, ou como um palhaço que tivesse um coração desenhado no cu, no largo traseiro de seda. A urina na primeira noite deveria ser a expressão do quanto era inadequada a filha para o coito – sexo, para a filha, não teria orgasmo, porque a vulva da filha era um órgão de mijar.
O crime de Elza passou então a ser feito. Paciente, lenta e furtivamente. Um crime em que ela não era agente, era a mão que obedecia às circunstâncias. Em meio a nove famílias de negros, ela, que não era tão negra, agravava a sua condição como esposa de um quase negro, pois que ele era um estudante, fadado a sair da quase aldeia. Mulher de um negro de passagem. Mulher de malungo provisório. Mulher ruim, mulher bruxa. Não lhe serviram os cinco filhos paridos de Misael, porque ela era observada por todos os cantos da comprida casa, por todos os recantos do longo quintal, noite e dia, perseguida até no buraco da fechadura, nas moitas dos muros, por entre a folhagem das árvores. Desejada e invocada era a sua queda. E assim, de tal maneira observada, Elza cometeu o seu crime. Sem nenhum heroísmo, sem revolta ou rancor. Cometeu-o porque assim o quiseram. E aqui, mais uma vez, sabemos e transmitimos o que dela contavam.
O soldador Efésio uma tarde passou-lhe a mão na bunda, diziam. As indicações desse ato eram bem ricas. Efésio era um homem alto, forte, glabro. Musculoso como um guerreiro, como a estampa de um vilão negro dos filmes de Tarzan. Sem camisa, a expor o peito escuro e montanhoso, agiu menos por um impulso que por uma história prévia, anterior ao passar a mão na bunda de Elza, diziam. E assim diziam porque, acrescentavam, ela sorrira ao atrevimento como se recebesse uma corte, um galanteio de um namorado, diziam. E assim dizendo, apontavam como indício de prova a grande e desejosa bunda de Elza. Bunda de Angola, bunda legítima e aperfeiçoada, que exposta aos requebros ao passar próxima a um macho era um convite, irrecusável, porque é dos machos machos a bunda bunda. E ao receber o convidado ela sorrira, diziam. E apontavam como segura prova o seu silêncio, e para melhor contundência da prova acrescentavam, “quem cala consente, é do adágio”. E Elza de fato calou, porque sorrira, porque tivera uma história anterior, porque recebera um afago vigoroso na bunda, diziam, nessa ordem, numa lógica infernal.
- Cadê que ela falou? Calou porque gostou, diziam.
Dona Sinhá, tia do marido, uma velha tísica, “seca de sexo”, pelo que lhe gritavam as sobrinhas, quando brigavam com ela, Dona Sinhá completava o que diziam: “Depois de sorrir, ela olhou para os lados, assustada”. Com esse fato consumado, ajuntava, fina: “Que sorrir ela sorri pra tudo que é macho. Mas por que olhou de banda, assustada? Quem não deve, não teme”. Desse ponto Elza teria piscado um olho para o enamorado e saído aos requebros, “para atiçar o homem”.
Diziam, e assim dizendo pouco se importavam com a segunda natureza plantada, com a redução da pessoa da mulher a uma bunda, com a nova pele que impunham na alma que possuíra vergonha de um sorvete e que se urinara na cama. Na verdade, consciência culpada da perseguição, consciência sabedora do sofrimento que lhe faziam, as nove famílias achavam natural que uma esposa sem privacidade, asfixiada, sem ar naquele minúsculo povoado da casa comprida, na verdade achavam natural que essa mulher procurasse homem diferente do marido. Pois era assim que aquela bruxa se vingava: com a bunda oferecida ao primeiro desclassificado. Do mesmo nível que ela. Meneando o traseiro gordo e engordado pelo trabalho da gente. “Era a vingança”, em consciência íntima diziam, para acrescentar, em voz alta, de “puta”.
Então o crime cresceu e ganhou a sua definitiva prova. Como uma ligação necessária entre o requebro, entre o expor a bunda à mão afoita, entre o sorriso à mão e a cama, como um fio lácteo de secreção, a colar os fatos, então houve o bilhete. Ninguém jamais teve a ousadia de perguntar se as linhas escritas do crime existiram. Aceitaram-nas como existentes. Assim como se dão por vistas, porque imaginadas, as linhas do rosto desfigurado de um defunto. Sem a vista material e objetiva das linhas, o bilhete dizia o que as diferentes versões e pessoas da comunidade diziam. Quando escrito pelo amante, assim se escrevia: “Elza, espero-te hoje às 8 da noite, por trás da oficina”. Ou “Elza, hoje de noite, no lugar de sempre, sem falta”. Ou então, “Debaixo do pé de jambo, de noite”. Nas versões atribuídas à infiel, o bilhete vinha dessa maneira: “Efésio, querido, hoje de noite. Um beijo bem forte”. Ou então, ainda: “Efésio, olha para mim, de vez em quando. Beijos. Elza, a sua mulher”.
Depois do bilhete, ou dos bilhetes, o soldador não foi morto ou sequer ameaçado. Pelo contrário, dir-se-ia que, aos olhos das virtuosas mulheres da comunidade, o seu perfil de macho e guerreiro foi muito valorizado. Quem sabe, saudado até com abraços e carinhos mais ardentes, reais e verdadeiros. Mas disso não há registros, escritos ou de boatos. O que há, com absoluta certeza, é que depois dos bilhetes as línguas de fogo voltaram-se contra Elza, e com todo ardor expulsaram-na, deixando-lhe o direito de carregar uma trouxa de trapos. Sem os filhos, que mãe vadia não tem filhos, conforme o costume.
Isto se sabe. Os registros de memória dos irmãos atestam, nebulosamente, que ela sobreviveu depois como empregada doméstica, lavando e passando roupas numa casa burguesa. Sabe-se por fim que faleceu depois de se jogar à frente das rodas de um táxi, ou depois de um aborto, num dos açougues clandestinos para mulheres no Recife. Em uma e outra hipótese, as línguas são unânimes, ela morreu grávida do soldador Efésio. Desajeitada no amor até o fim. A negra, que todos diziam ser do cabelo bom.
(*) Urariano Mota é jornalista e escritor. Tem colaborado em sites da Espanha, de Portugal, da Rússia (no Pravda) e do Brasil. Publicou o romance Os Corações Futuristas, e tem inédito O caso Dom Vital, ainda à procura de editor.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
terça-feira, 21 de julho de 2009
Diário Machu Picchu I, por Fábio de Lima
Fábio de Lima (*)
Só hoje publico meu primeiro texto de 2009 aqui no Comunique-se. Tirei umas férias merecidas e resolvi viajar ao Peru. Meu destino final era Machu Picchu, a cidade perdida dos Incas. Mas, já em 1911, ela foi encontrada pelo aventureiro Hiram Bingham. Talvez outras pessoas já a houvesse encontrada antes, mas quis a história que Bingham ficasse conhecido como o homem que popularizou a descoberta.
No Peru estive hospedado na cidade de Cuzco. A cidade está mais de 1.100 km distante de Lima, numa altitude de cerca de 3.400 metros, e tem apenas 300 mil habitantes – embora receba mais de 1,5 milhão de turistas todo o ano. Ela foi uma espécie de capital do povo Inca e hoje encanta os turistas não só pelas inúmeras construções de estilo colonial, mas também pelos diversos idiomas falados pelas ruas da cidade e, ainda, pelo grande número de sítios arqueológicos em seus arredores.
Eu sempre gostei de paisagens antigas, com jeito de esquecidas. Pensando bem, eu sempre gostei do passado. Então, andando pelas ruas estreitas de Cuzco, que significa umbigo do mundo em quechua, idioma herdado dos Incas e que, ainda hoje, boa parte dos nascidos em Cuzco fala, paralelamente ao espanhol, tive grandes alegrias em olhar o passado valorizado e preservado, seja pelos habitantes locais ou pelos turistas estupefatos com tanta beleza.
Os espanhóis chegaram a Cuzco em 1532 e destruíram quase toda a cidade – só reaproveitando as ruínas de pedras para erguerem suas moradias e igrejas. Eles tentaram apagar a história do povo Inca. Só tentaram. Quanto mais oprimiram aquele povo mais forte as suas raízes e culturas ficaram. Se hoje, todos os anos, milhões de pessoas deixam seus países para visitar o Peru, um país pobre de uma América do Sul pobre, é por que lá existe um povo que nunca abaixou a cabeça, mesmo diante da derrota.
(Continua na próxima semana...)
(*) Jornalista e escritor, ou “contador de histórias”, como prefere ser chamado. Está escrevendo seu primeiro romance, DOCE DESESPERO, com publicação (ainda!) em data incerta
Só hoje publico meu primeiro texto de 2009 aqui no Comunique-se. Tirei umas férias merecidas e resolvi viajar ao Peru. Meu destino final era Machu Picchu, a cidade perdida dos Incas. Mas, já em 1911, ela foi encontrada pelo aventureiro Hiram Bingham. Talvez outras pessoas já a houvesse encontrada antes, mas quis a história que Bingham ficasse conhecido como o homem que popularizou a descoberta.
No Peru estive hospedado na cidade de Cuzco. A cidade está mais de 1.100 km distante de Lima, numa altitude de cerca de 3.400 metros, e tem apenas 300 mil habitantes – embora receba mais de 1,5 milhão de turistas todo o ano. Ela foi uma espécie de capital do povo Inca e hoje encanta os turistas não só pelas inúmeras construções de estilo colonial, mas também pelos diversos idiomas falados pelas ruas da cidade e, ainda, pelo grande número de sítios arqueológicos em seus arredores.
Eu sempre gostei de paisagens antigas, com jeito de esquecidas. Pensando bem, eu sempre gostei do passado. Então, andando pelas ruas estreitas de Cuzco, que significa umbigo do mundo em quechua, idioma herdado dos Incas e que, ainda hoje, boa parte dos nascidos em Cuzco fala, paralelamente ao espanhol, tive grandes alegrias em olhar o passado valorizado e preservado, seja pelos habitantes locais ou pelos turistas estupefatos com tanta beleza.
Os espanhóis chegaram a Cuzco em 1532 e destruíram quase toda a cidade – só reaproveitando as ruínas de pedras para erguerem suas moradias e igrejas. Eles tentaram apagar a história do povo Inca. Só tentaram. Quanto mais oprimiram aquele povo mais forte as suas raízes e culturas ficaram. Se hoje, todos os anos, milhões de pessoas deixam seus países para visitar o Peru, um país pobre de uma América do Sul pobre, é por que lá existe um povo que nunca abaixou a cabeça, mesmo diante da derrota.
(Continua na próxima semana...)
(*) Jornalista e escritor, ou “contador de histórias”, como prefere ser chamado. Está escrevendo seu primeiro romance, DOCE DESESPERO, com publicação (ainda!) em data incerta
domingo, 12 de julho de 2009
Emoções soltas, por Flávia Gomes
Flávia Gomes (*)
O que fazer quando a única vontade é de chorar? Por que o conselho não é o mesmo quando me dizem para sorrir? As emoções deveriam ser equilibradas. E o conselho deveria sempre ser: ponha para fora suas vontades. Essa mania de controle. Quem somos nós para controlar nossas emoções?
Acredito que todos desejariam ter seus próprios controles ao alcance da mão. Quem sabe um controle-remoto para que pudéssemos zapear dentro de nossos próprios canais. A programação de uma vida. Ou uma vida muito menos programada. Tiraríamos os medos, frustrações? Perguntaríamos mais, arriscaríamos mais?
O que faríamos para não deixar o medo da resposta sufocar a pergunta? Como viver deixando tudo para trás e ficando leve, carregando apenas o que necessitamos na jornada a cada instante? Mas jornada para onde? Como saber o que é preciso carregar? A cabeça pesa tanto quanto a mochila cheia de tralhas. Que bom seria viver a vida sem carregar nada! Imagine a leveza de cada um de nós. Talvez desse até para voar.
Carregaríamos apenas corações remendados, com pedaços de outros, com alguns buracos. Um coração parecido com uma colcha de retalhos. Cada emoção com uma cor, uma estampa, um desenho diferente. Falaríamos com todos pelo caminho, satisfazendo todas as nossas vontades. Vivendo um dia de cada vez.
(*) Jornalista.
O que fazer quando a única vontade é de chorar? Por que o conselho não é o mesmo quando me dizem para sorrir? As emoções deveriam ser equilibradas. E o conselho deveria sempre ser: ponha para fora suas vontades. Essa mania de controle. Quem somos nós para controlar nossas emoções?
Acredito que todos desejariam ter seus próprios controles ao alcance da mão. Quem sabe um controle-remoto para que pudéssemos zapear dentro de nossos próprios canais. A programação de uma vida. Ou uma vida muito menos programada. Tiraríamos os medos, frustrações? Perguntaríamos mais, arriscaríamos mais?
O que faríamos para não deixar o medo da resposta sufocar a pergunta? Como viver deixando tudo para trás e ficando leve, carregando apenas o que necessitamos na jornada a cada instante? Mas jornada para onde? Como saber o que é preciso carregar? A cabeça pesa tanto quanto a mochila cheia de tralhas. Que bom seria viver a vida sem carregar nada! Imagine a leveza de cada um de nós. Talvez desse até para voar.
Carregaríamos apenas corações remendados, com pedaços de outros, com alguns buracos. Um coração parecido com uma colcha de retalhos. Cada emoção com uma cor, uma estampa, um desenho diferente. Falaríamos com todos pelo caminho, satisfazendo todas as nossas vontades. Vivendo um dia de cada vez.
(*) Jornalista.
domingo, 5 de julho de 2009
De coração ou por educação?, por Sayonara LinoSayonara Lino (*)
Necessidade de aprovação alheia é um sentimento bastante comum, afinal, vivemos em sociedade e quase todos buscamos algum tipo de reconhecimento. É agradável receber incentivo e elogio principalmente daqueles que nos são caros. Isso torna-se um problema quando queremos agradar sempre e não conseguimos estabelecer limites e dizer a palavrinha “não” quando necessário.
Fazemos favores e assumimos compromissos por educação e não de coração, amorosamente. Dessa forma, ficamos condicionados a agradar a todos, tememos ser rejeitados e abrimos mão de nossos verdadeiros desejos para evitar magoar os outros. O pior é quando não recebemos de forma proporcional ao que foi oferecido e nos sentimos traídos por quem tanto ajudamos.
Considero esse vício comportamental um tremendo engano. Quem acha que ao doar-se demais irá receber o mesmo em troca é iludido e não faz de graça. Quem quer ajudar de fato não espera retorno. É comum a vida nos presentear com ajudas vindas de pessoas que sequer imaginamos. É claro que relacionamento envolve troca, aqui estou falando dos excessos que permeiam algumas relações.
Outro efeito rebote relacionado aos atos dos educados de plantão: quando o outro percebe, aquele mesmo a quem você atendeu com tanto zelo, que suas atitudes estão mais relacionadas ao apreço e à boa-conduta do que ao afeto. Os muito bem-educados que me perdoem, mas respeito a si mesmo e dizer “não posso”, “infelizmente estou de saída” , “vamos deixar para outra ocasião?”, são fundamentais para o desenvolvimento de relacionamentos saudáveis, pautados pela vontade e não pela obrigatoriedade.
(*) Jornalista.
Fazemos favores e assumimos compromissos por educação e não de coração, amorosamente. Dessa forma, ficamos condicionados a agradar a todos, tememos ser rejeitados e abrimos mão de nossos verdadeiros desejos para evitar magoar os outros. O pior é quando não recebemos de forma proporcional ao que foi oferecido e nos sentimos traídos por quem tanto ajudamos.
Considero esse vício comportamental um tremendo engano. Quem acha que ao doar-se demais irá receber o mesmo em troca é iludido e não faz de graça. Quem quer ajudar de fato não espera retorno. É comum a vida nos presentear com ajudas vindas de pessoas que sequer imaginamos. É claro que relacionamento envolve troca, aqui estou falando dos excessos que permeiam algumas relações.
Outro efeito rebote relacionado aos atos dos educados de plantão: quando o outro percebe, aquele mesmo a quem você atendeu com tanto zelo, que suas atitudes estão mais relacionadas ao apreço e à boa-conduta do que ao afeto. Os muito bem-educados que me perdoem, mas respeito a si mesmo e dizer “não posso”, “infelizmente estou de saída” , “vamos deixar para outra ocasião?”, são fundamentais para o desenvolvimento de relacionamentos saudáveis, pautados pela vontade e não pela obrigatoriedade.
(*) Jornalista.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Primeiros pássaros, por Nei DuclósNei Duclós (*)
Desconheço os pássaros de penas amarelas que flagro às vezes entre a mesmice das espécies voadoras urbanas. Talvez sejam sobreviventes de velhos massacres, da época em que o Brasil decidiu importar pardais numa súbita saudade da distante Paris. Ou então fruto de cruzamento das aves adventícias com os exemplares resistentes da nossa fauna. Eles convivem, anônimos, com outros, de papel passado, como o bem-te-vi, tão disseminado quanto o quero-quero, que agora não é mais exclusivo do pampa. No meu quintal, debruçam-se algumas surpresas, como raras rolinhas que fogem em bando ao primeiro sinal da porta. Ou as corruíras, de alarido insistente, lisas nos seus movimentos de eterna fuga por entre a escassa ramagem. À espreita, gaviões improvisam tocaias em cima de telhados recém construídos. E à distância, mas não muito, o rodopio dos urubus, a sinalizar as presas. Lembro dos bandos em formação que coroavam a fronteira em determinadas épocas. Fugiam para mais ao sul, e às vezes voltavam rumo aos cerrados, matas atlânticas, chacos. Sempre invoquei com a competência da migração coletiva, a que chamam instinto, mas que é pura sabedoria. Os pássaros pensam, como os outros bichos. Chegaram à excelência da viagem por meio de tentativa e erro, como o resto de nós. Quantas não sucumbiram nas improvisações e nos rumos errados? As criaturas possuem esse dom de achar o caminho, nem que levem a eternidade para conseguir. Por isso, quando vemos as coesas esquadrilhas de patos em direção ao verão, ou a desfaçatez dos espécimes saltimbancos, devemos atentar para essa evidência: a de que as aves trafegam e aprendem enquanto se movimentam. Se fixarmos o olhar, deixando-o ao mesmo tempo solto, à mercê dos pulos, bater de asas, pios e olhares rápidos em cabeças ariscas, saberemos um pouco do que se trata e o que essa presença significa. Os pássaros estão conectados aos sonhos, premonições, encantamentos. Há sempre um corvo sobre um caldeirão fervente da feiticeira. Um papagaio no ombro do pirata. Andorinhas que conduzem o vestido de Cinderela. Gansos em investidas contra a vilania. Corujas atentas aos mistérios do escuro. Penas em sortilégios, pombas ao redor de sinos, revoadas em coreografias perfeitas sobre os cardumes, mergulhos em linha reta fisgando escamas indefesas. Os pássaros anunciam não apenas os movimentos definitivos do sol, quando raia o dia ou quando se recolhe no crepúsculo. A árvore carregada de sons nos traz a notícia ainda oculta, os sinais evidentes de um acontecimento poderoso. Talvez seja o amor que acene numa algazarra na água, na brincadeira barulhenta na ramaria das margens. Talvez o solitário filhote que escapou do ninho e pousa, ressabiado, no poste, seja aquela visita tão esperada que está pronta para tocar o telefone. Os primeiros pássaros, anunciadores, têm a força das vitórias fecundas, as que nem saem destacadas em jornais ou blogs. Fazem parte do currículo da vida e nos ajudam a sobreviver, do mesmo modo que um grão, um miolo de pão, uma flor carregados até o ninho, nossa memória. A criança que inaugura o andar sob a tutela dos adultos e é aplaudida quando, cruzando as pernas, consegue cumprir seu primeiro grande objetivo; a vítima de acidente que encontra forças para recuperar os movimentos com o apoio da medicina e dos laços familiares; o estudante que entra pela primeira vez no Terceiro Grau ainda sob o efeito do mergulho insano para vencer o vestibular; o filho pródigo que enfim se decide e volta para abraçar os pais; o casal de aposentados que consegue fazer sua primeira viagem internacional; o devoto que se concentra antes da longa caminhada até o altar santo: todos esses primeiros passos são sagrados e transcendem a data em que são realizados. São vitórias pessoais de criaturas limitadas, que ultrapassam a fronteira do sonho e impregnam a realidade de grandeza. São gestos acima do normal, degraus para uma visão mais ampla do que chamamos vida, esse mistério que nos convoca e que pode nos abandonar de uma hora para outra. Passos, pássaros: a linguagem aproxima o que parece disperso.
(*) Autor de três livros de poesia: "Outubro" (1975), "No meio da rua" (1979) e "No mar, Veremos" (2001); de um romance: "Universo Baldio" (2004); e de um livro de conto e crônicas: "O Refúgio do Príncipe - Histórias Sopradas pelo Vento" (2006). Jornalista desde 1970 e formado em História.
(*) Autor de três livros de poesia: "Outubro" (1975), "No meio da rua" (1979) e "No mar, Veremos" (2001); de um romance: "Universo Baldio" (2004); e de um livro de conto e crônicas: "O Refúgio do Príncipe - Histórias Sopradas pelo Vento" (2006). Jornalista desde 1970 e formado em História.
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Recife, 1970, por Risomar Fasanaro
Risomar Fasanaro (*)
Em julho de 1970 voltei ao Recife pela primeira vez, desde que viera morar em Osasco- SP. E foi lá, na minha terra natal que senti de perto os tentáculos da ditadura. Viajei com três amigas: Ilíada, e Maria Antônia, duas estudantes de História e minha amiga Maria clara e eu de Letras.
Escolhemos uma pousada em um sobrado antigo para nos hospedar. Os quartos eram bem grandes, com janelas e portas altíssimas, uma escadaria de metal em caracol que unia o andar térreo ao andar superior. Uma construção da época do Brasil colonial.
Ficamos todas no mesmo quarto, e à noite, já deitadas, contei às minhas amigas uma história que se passou no Recife e que desde pequena me fascinou: a história da emparedada da Rua Nova, que muitas vezes ouvi minha mãe contar. História que o escritor Carneiro Vilela registrou em seu romance “A emparedada da Rua Nova”.
Havia, no século XIX, um senhor de engenho casado e que tinha uma filha. A mulher dele tinha um amante que, dizem, seduziu também a moça e a engravidou. Ao saber da gravidez da filha o senhor de engenho contratou alguns pedreiros, e tanto os homens quanto a moça foram levados encapuzados a um casarão onde a moça foi emparedada viva em uma das paredes do casarão.
Contam também que quando começaram a demolir algumas construções antigas no centro daquela cidade, encontraram em um casarão o esqueleto de uma mulher e de um feto, presos em uma parede. Se é verdade, não sei. Dirá melhor quem vive lá.
Aquela noite, junto com minhas amigas olhando aquele teto altíssimo e vendo a espessura daquelas paredes fiquei imaginando o sofrimento daquela moça amarrada e amordaçada sem poder reagir. Pensava na possibilidade de aquela história ser real e a que crimes o poder patriarcal, e o falso puritanismo levam. Muitas vezes maiores que os do próprio réu.
Alguns amigos me pedem que conte algumas passagens que vivi durante os anos de chumbo. É para atender a esses pedidos que início hoje algumas passagens que vivi durante os anos de chumbo. E, se for autorizada, contar histórias de pessoas próximas que também viveram alguns momentos difíceis naquela época.
Saí do Recife com onze anos, conheço muito pouco minha cidade, e a sede de conhecê-la é muito grande até hoje. Aquela viagem tinha tudo para ser perfeita: estava com três pessoas interessadíssimas em conhecer a história e a cultura de Pernambuco, por isso eu estava muito feliz. Fotografava tudo que achava interessante: mulheres rendeiras, as crianças, as vendedoras de tapioca nas ruas, as pontes, as igrejas, e o rio. O Rio Capibaribe que é minha maior paixão naquela cidade.
E não só fotografava. Anotava palavras, frases, tudo que nos interessava. Maria Clara andava com um bloquinho, pois este era um conselho da professora Ada Natal Rodrigues, nossa professora de Lingüística. Até hoje tenho o hábito de anotar e fotografar tudo que posso, e era o que estávamos fazendo naquele dia chuvoso de julho.
À tarde iríamos a Natal; já estávamos com as passagens compradas, e de Natal partiríamos de volta para São Paulo, mas não voltaria sem ir a Socorro onde passei minha infância.
Saímos cedinho, Alba e eu. E quando entramos no ônibus comecei a sentir angústia, um sentimento que me toma sempre que vai acontecer algo ruim a mim ou a alguém muito ligado a mim. Já desacreditei disso, tentei achar que era ilusão, mas a cada dia mais isso se confirma. Algo dentro de mim recebe antes o que vai acontecer. Contei a Alba o que estava sentindo e ela me acalmou: “é a emoção da volta”.
Chegando a Socorro, nos dirigimos à guarita da sentinela, já que desde criança me acostumara que só se entrava na vila depois de se identificar junto ao soldado que ali fica de plantão.
O soldado nos informou que para entrar era preciso pedir autorização ao oficial de dia. Para isso teríamos de nos dirigir a um prédio que ficava a uns trezentos metros de distância.
Saímos, minha amiga e eu, em direção ao outro prédio. No espaço que liga a guarita ao prédio, ficam a igreja, a escola e o cinema, os locais que frequentei quase diariamente durante vários anos. Por isso resolvi ir fotografando cada um. Começou a chover e nos abrigamos sob a marquise do cinema, para esperar a chuva passar. De lá se via todo o quartel, e olhando a neblina que formava uma leve cortina de água, li a frase em letras garrafais de cimento branco, sobre o gramado, que se encontra em frente ao prédio: AQUI SE APRENDE A AMAR E A DEFENDER A PÁTRIA.
Tirei uma foto daquela frase para trazer para meu pai que ali servira muitos anos. Mas logo, logo saberíamos de que forma os que ali dentro trabalhavam, defendiam meu país, minha pátria. Na próxima semana conto o que vivemos naquele local.
(*) Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora, autora de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e José Louzeiro. Militante contra a última ditadura militar no Brasil.
Em julho de 1970 voltei ao Recife pela primeira vez, desde que viera morar em Osasco- SP. E foi lá, na minha terra natal que senti de perto os tentáculos da ditadura. Viajei com três amigas: Ilíada, e Maria Antônia, duas estudantes de História e minha amiga Maria clara e eu de Letras.
Escolhemos uma pousada em um sobrado antigo para nos hospedar. Os quartos eram bem grandes, com janelas e portas altíssimas, uma escadaria de metal em caracol que unia o andar térreo ao andar superior. Uma construção da época do Brasil colonial.
Ficamos todas no mesmo quarto, e à noite, já deitadas, contei às minhas amigas uma história que se passou no Recife e que desde pequena me fascinou: a história da emparedada da Rua Nova, que muitas vezes ouvi minha mãe contar. História que o escritor Carneiro Vilela registrou em seu romance “A emparedada da Rua Nova”.
Havia, no século XIX, um senhor de engenho casado e que tinha uma filha. A mulher dele tinha um amante que, dizem, seduziu também a moça e a engravidou. Ao saber da gravidez da filha o senhor de engenho contratou alguns pedreiros, e tanto os homens quanto a moça foram levados encapuzados a um casarão onde a moça foi emparedada viva em uma das paredes do casarão.
Contam também que quando começaram a demolir algumas construções antigas no centro daquela cidade, encontraram em um casarão o esqueleto de uma mulher e de um feto, presos em uma parede. Se é verdade, não sei. Dirá melhor quem vive lá.
Aquela noite, junto com minhas amigas olhando aquele teto altíssimo e vendo a espessura daquelas paredes fiquei imaginando o sofrimento daquela moça amarrada e amordaçada sem poder reagir. Pensava na possibilidade de aquela história ser real e a que crimes o poder patriarcal, e o falso puritanismo levam. Muitas vezes maiores que os do próprio réu.
Alguns amigos me pedem que conte algumas passagens que vivi durante os anos de chumbo. É para atender a esses pedidos que início hoje algumas passagens que vivi durante os anos de chumbo. E, se for autorizada, contar histórias de pessoas próximas que também viveram alguns momentos difíceis naquela época.
Saí do Recife com onze anos, conheço muito pouco minha cidade, e a sede de conhecê-la é muito grande até hoje. Aquela viagem tinha tudo para ser perfeita: estava com três pessoas interessadíssimas em conhecer a história e a cultura de Pernambuco, por isso eu estava muito feliz. Fotografava tudo que achava interessante: mulheres rendeiras, as crianças, as vendedoras de tapioca nas ruas, as pontes, as igrejas, e o rio. O Rio Capibaribe que é minha maior paixão naquela cidade.
E não só fotografava. Anotava palavras, frases, tudo que nos interessava. Maria Clara andava com um bloquinho, pois este era um conselho da professora Ada Natal Rodrigues, nossa professora de Lingüística. Até hoje tenho o hábito de anotar e fotografar tudo que posso, e era o que estávamos fazendo naquele dia chuvoso de julho.
À tarde iríamos a Natal; já estávamos com as passagens compradas, e de Natal partiríamos de volta para São Paulo, mas não voltaria sem ir a Socorro onde passei minha infância.
Saímos cedinho, Alba e eu. E quando entramos no ônibus comecei a sentir angústia, um sentimento que me toma sempre que vai acontecer algo ruim a mim ou a alguém muito ligado a mim. Já desacreditei disso, tentei achar que era ilusão, mas a cada dia mais isso se confirma. Algo dentro de mim recebe antes o que vai acontecer. Contei a Alba o que estava sentindo e ela me acalmou: “é a emoção da volta”.
Chegando a Socorro, nos dirigimos à guarita da sentinela, já que desde criança me acostumara que só se entrava na vila depois de se identificar junto ao soldado que ali fica de plantão.
O soldado nos informou que para entrar era preciso pedir autorização ao oficial de dia. Para isso teríamos de nos dirigir a um prédio que ficava a uns trezentos metros de distância.
Saímos, minha amiga e eu, em direção ao outro prédio. No espaço que liga a guarita ao prédio, ficam a igreja, a escola e o cinema, os locais que frequentei quase diariamente durante vários anos. Por isso resolvi ir fotografando cada um. Começou a chover e nos abrigamos sob a marquise do cinema, para esperar a chuva passar. De lá se via todo o quartel, e olhando a neblina que formava uma leve cortina de água, li a frase em letras garrafais de cimento branco, sobre o gramado, que se encontra em frente ao prédio: AQUI SE APRENDE A AMAR E A DEFENDER A PÁTRIA.
Tirei uma foto daquela frase para trazer para meu pai que ali servira muitos anos. Mas logo, logo saberíamos de que forma os que ali dentro trabalhavam, defendiam meu país, minha pátria. Na próxima semana conto o que vivemos naquele local.
(*) Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora, autora de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e José Louzeiro. Militante contra a última ditadura militar no Brasil.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
As últimas sessões de Marilyn, por Evelyne FurtadoEvelyne Furtado (*)
"Os homens querem ir à lua, mas não se interessam pelo coração humano".(Fala de Marilyn Monroe no livro Marilyn “As ùltimas Sessões”).
”Marilyn ùltimas Sessões”. Comprei por impulso. Já estava com outro livro na mão quando meus olhos pousaram no volume de capa escura com uma foto de Marilyn Monroe, sorrindo sutilmente com um cigarro na mão.
Li a orelha falando sobre o autor Michel Scheneider. Psicanalista francês, escritor premiado que entrelaça, no romance, o relacionamento da atriz com seu psicanalista Ralfh Greenson nos dois últimos anos de vida da atriz.
Não tinha como errar na aquisição. Adoro biografias e a psicanálise é um assunto a mim muito interessante, apesar de conhecê-la pouco.
Comecei a ler, porém o autor não me seduziu a princípio. Acredito que a tradução tenha prejudicado a narrativa. Deixei o livro, marcado e dediquei-me à leitura de outro que já havia iniciado.
Quando encerro a leitura de um livro envolvente sinto um vazio. Como se um amor fosse embora. Despedi-me dos personagens queridos e naquela mesma noite ganhei um brinco cuja a embalagem trazia o nome da loja: Nunca Fui Santa.
Ao me recolher, tarde da noite, retornei a “Marilyn Últimas Sessões”, exatamente no capítulo em que o autor se referia às filmagens de “Nunca Fui Santa”, filme no qual Marilyn atuou. Não parei mais de ler e mergulhei na alma de Norma Jeane Baker, a menina perdida que se tornou o maior mito sexual da história moderna.
Se antes me comovia sua morte precoce, aos 36 anos, no ano em que nasci; hoje me espanto por Marilyn Monroe ter resistido esses anos todos, diante da fragilidade de sua estrutura emocional.
Sua alma era de uma sobrevivente, a despeito do glamour e da sexualidade aparente. Reiventou-se, descolorindo os cabelos e adotando um novo nome, deixando de ser Norma Jeane para se tornar Marilyn Monroe.
Tentou apagar anos de rejeição, ocasionados pela doença mental da mãe que a abandonou e pelas passagens por orfanatos e por várias famílias, onde foi abusada por pais adotivos, com a troca de sexo para obter amor em sua vida adulta.
Marilyn teve muitos homens, entre eles: Joe DiMagio, jogador de basebol e Arthur Miller, dramaturgo, com quem se casou. Teve casos com Elia Kazan, Frank Sinatra, Ives Montand e, finalmente, com os irmãos John e Bobby Kennedy.
Mas, o livro aborda superficialmente esses relacionamentos. O autor explora a relação de dependência total entre a paciente e o psicanalista Ralph Greenson, revelando o caos emocional da mulher por trás da imagem. As estrelas são fascinantes e tentamos descobrir o que existe além do brilho. É então que atua a psicanálise adentrando e revelando, mais de quarenta anos após a sua morte, a alma da mulher que lutou para fugir do estereótipo que Hollywood criara para ela: loura, sexi e boba.
Marilyn Monroe não era pouco superficial. Embora amasse sua imagem, a estrela lia bons autores, preocupava-se em aprender e se aprofundava em seus fantasmas para se livrar deles.. Foi analisada inclusive por Ana Freud e citou Joyce em fitas que deixou para o seu Doutor.
Era uma criança órfã em um corpo de mulher que amadurecia, que tinha medo e que era incrivelmente só. Entupia-se de barbitúricos, anfentaminas e outras drogas para se manter viva.
Greenson não conseguiu salvá-la da dor e do vazio que a perseguia, apesar de ter, por dois anos, tomado conta de todos os aspectos da vida da mocinha que se tornara atriz para sobreviver a si mesma. O autor deixa claro, no entanto, que não havia relacionamento sexual entre eles.
A leitura tem um lado pueril por revelar um pouco a intimidade de alguns mitos do cinema e da política dos anos sessenta, porém é mórbida. E não tinha como escapar disso, pois a iniciamos sabendo como foi trágico e ainda incompreendido o fim da vida de Marilyn.
O mito superou a mulher, que em agosto de 1962 sucumbiu ao desespero não se sabe se por acidente ou se por intenção. Ainda hoje as fotos de Marilyn Monroe são disputadas em leilões e seu rosto é conhecido até pelos que nasceram muito depois de sua morte.
Depois do livro, sugiro uma nova sessão de “O Pecado Mora ao Lado”. Volta-se, então, à ilusão que o cinema criou.
"Ela ficava em polvorosa enquanto a paz não fosse restabelecida"(Do relatório do Dr. Greenson a Ana Freud). (*) Cronista e poetisa em Natal/RN.
”Marilyn ùltimas Sessões”. Comprei por impulso. Já estava com outro livro na mão quando meus olhos pousaram no volume de capa escura com uma foto de Marilyn Monroe, sorrindo sutilmente com um cigarro na mão.
Li a orelha falando sobre o autor Michel Scheneider. Psicanalista francês, escritor premiado que entrelaça, no romance, o relacionamento da atriz com seu psicanalista Ralfh Greenson nos dois últimos anos de vida da atriz.
Não tinha como errar na aquisição. Adoro biografias e a psicanálise é um assunto a mim muito interessante, apesar de conhecê-la pouco.
Comecei a ler, porém o autor não me seduziu a princípio. Acredito que a tradução tenha prejudicado a narrativa. Deixei o livro, marcado e dediquei-me à leitura de outro que já havia iniciado.
Quando encerro a leitura de um livro envolvente sinto um vazio. Como se um amor fosse embora. Despedi-me dos personagens queridos e naquela mesma noite ganhei um brinco cuja a embalagem trazia o nome da loja: Nunca Fui Santa.
Ao me recolher, tarde da noite, retornei a “Marilyn Últimas Sessões”, exatamente no capítulo em que o autor se referia às filmagens de “Nunca Fui Santa”, filme no qual Marilyn atuou. Não parei mais de ler e mergulhei na alma de Norma Jeane Baker, a menina perdida que se tornou o maior mito sexual da história moderna.
Se antes me comovia sua morte precoce, aos 36 anos, no ano em que nasci; hoje me espanto por Marilyn Monroe ter resistido esses anos todos, diante da fragilidade de sua estrutura emocional.
Sua alma era de uma sobrevivente, a despeito do glamour e da sexualidade aparente. Reiventou-se, descolorindo os cabelos e adotando um novo nome, deixando de ser Norma Jeane para se tornar Marilyn Monroe.
Tentou apagar anos de rejeição, ocasionados pela doença mental da mãe que a abandonou e pelas passagens por orfanatos e por várias famílias, onde foi abusada por pais adotivos, com a troca de sexo para obter amor em sua vida adulta.
Marilyn teve muitos homens, entre eles: Joe DiMagio, jogador de basebol e Arthur Miller, dramaturgo, com quem se casou. Teve casos com Elia Kazan, Frank Sinatra, Ives Montand e, finalmente, com os irmãos John e Bobby Kennedy.
Mas, o livro aborda superficialmente esses relacionamentos. O autor explora a relação de dependência total entre a paciente e o psicanalista Ralph Greenson, revelando o caos emocional da mulher por trás da imagem. As estrelas são fascinantes e tentamos descobrir o que existe além do brilho. É então que atua a psicanálise adentrando e revelando, mais de quarenta anos após a sua morte, a alma da mulher que lutou para fugir do estereótipo que Hollywood criara para ela: loura, sexi e boba.
Marilyn Monroe não era pouco superficial. Embora amasse sua imagem, a estrela lia bons autores, preocupava-se em aprender e se aprofundava em seus fantasmas para se livrar deles.. Foi analisada inclusive por Ana Freud e citou Joyce em fitas que deixou para o seu Doutor.
Era uma criança órfã em um corpo de mulher que amadurecia, que tinha medo e que era incrivelmente só. Entupia-se de barbitúricos, anfentaminas e outras drogas para se manter viva.
Greenson não conseguiu salvá-la da dor e do vazio que a perseguia, apesar de ter, por dois anos, tomado conta de todos os aspectos da vida da mocinha que se tornara atriz para sobreviver a si mesma. O autor deixa claro, no entanto, que não havia relacionamento sexual entre eles.
A leitura tem um lado pueril por revelar um pouco a intimidade de alguns mitos do cinema e da política dos anos sessenta, porém é mórbida. E não tinha como escapar disso, pois a iniciamos sabendo como foi trágico e ainda incompreendido o fim da vida de Marilyn.
O mito superou a mulher, que em agosto de 1962 sucumbiu ao desespero não se sabe se por acidente ou se por intenção. Ainda hoje as fotos de Marilyn Monroe são disputadas em leilões e seu rosto é conhecido até pelos que nasceram muito depois de sua morte.
Depois do livro, sugiro uma nova sessão de “O Pecado Mora ao Lado”. Volta-se, então, à ilusão que o cinema criou.
"Ela ficava em polvorosa enquanto a paz não fosse restabelecida"(Do relatório do Dr. Greenson a Ana Freud). (*) Cronista e poetisa em Natal/RN.
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