Desconheço os pássaros de penas amarelas que flagro às vezes entre a mesmice das espécies voadoras urbanas. Talvez sejam sobreviventes de velhos massacres, da época em que o Brasil decidiu importar pardais numa súbita saudade da distante Paris. Ou então fruto de cruzamento das aves adventícias com os exemplares resistentes da nossa fauna. Eles convivem, anônimos, com outros, de papel passado, como o bem-te-vi, tão disseminado quanto o quero-quero, que agora não é mais exclusivo do pampa. No meu quintal, debruçam-se algumas surpresas, como raras rolinhas que fogem em bando ao primeiro sinal da porta. Ou as corruíras, de alarido insistente, lisas nos seus movimentos de eterna fuga por entre a escassa ramagem. À espreita, gaviões improvisam tocaias em cima de telhados recém construídos. E à distância, mas não muito, o rodopio dos urubus, a sinalizar as presas. Lembro dos bandos em formação que coroavam a fronteira em determinadas épocas. Fugiam para mais ao sul, e às vezes voltavam rumo aos cerrados, matas atlânticas, chacos. Sempre invoquei com a competência da migração coletiva, a que chamam instinto, mas que é pura sabedoria. Os pássaros pensam, como os outros bichos. Chegaram à excelência da viagem por meio de tentativa e erro, como o resto de nós. Quantas não sucumbiram nas improvisações e nos rumos errados? As criaturas possuem esse dom de achar o caminho, nem que levem a eternidade para conseguir. Por isso, quando vemos as coesas esquadrilhas de patos em direção ao verão, ou a desfaçatez dos espécimes saltimbancos, devemos atentar para essa evidência: a de que as aves trafegam e aprendem enquanto se movimentam. Se fixarmos o olhar, deixando-o ao mesmo tempo solto, à mercê dos pulos, bater de asas, pios e olhares rápidos em cabeças ariscas, saberemos um pouco do que se trata e o que essa presença significa. Os pássaros estão conectados aos sonhos, premonições, encantamentos. Há sempre um corvo sobre um caldeirão fervente da feiticeira. Um papagaio no ombro do pirata. Andorinhas que conduzem o vestido de Cinderela. Gansos em investidas contra a vilania. Corujas atentas aos mistérios do escuro. Penas em sortilégios, pombas ao redor de sinos, revoadas em coreografias perfeitas sobre os cardumes, mergulhos em linha reta fisgando escamas indefesas. Os pássaros anunciam não apenas os movimentos definitivos do sol, quando raia o dia ou quando se recolhe no crepúsculo. A árvore carregada de sons nos traz a notícia ainda oculta, os sinais evidentes de um acontecimento poderoso. Talvez seja o amor que acene numa algazarra na água, na brincadeira barulhenta na ramaria das margens. Talvez o solitário filhote que escapou do ninho e pousa, ressabiado, no poste, seja aquela visita tão esperada que está pronta para tocar o telefone. Os primeiros pássaros, anunciadores, têm a força das vitórias fecundas, as que nem saem destacadas em jornais ou blogs. Fazem parte do currículo da vida e nos ajudam a sobreviver, do mesmo modo que um grão, um miolo de pão, uma flor carregados até o ninho, nossa memória. A criança que inaugura o andar sob a tutela dos adultos e é aplaudida quando, cruzando as pernas, consegue cumprir seu primeiro grande objetivo; a vítima de acidente que encontra forças para recuperar os movimentos com o apoio da medicina e dos laços familiares; o estudante que entra pela primeira vez no Terceiro Grau ainda sob o efeito do mergulho insano para vencer o vestibular; o filho pródigo que enfim se decide e volta para abraçar os pais; o casal de aposentados que consegue fazer sua primeira viagem internacional; o devoto que se concentra antes da longa caminhada até o altar santo: todos esses primeiros passos são sagrados e transcendem a data em que são realizados. São vitórias pessoais de criaturas limitadas, que ultrapassam a fronteira do sonho e impregnam a realidade de grandeza. São gestos acima do normal, degraus para uma visão mais ampla do que chamamos vida, esse mistério que nos convoca e que pode nos abandonar de uma hora para outra. Passos, pássaros: a linguagem aproxima o que parece disperso.
(*) Autor de três livros de poesia: "Outubro" (1975), "No meio da rua" (1979) e "No mar, Veremos" (2001); de um romance: "Universo Baldio" (2004); e de um livro de conto e crônicas: "O Refúgio do Príncipe - Histórias Sopradas pelo Vento" (2006). Jornalista desde 1970 e formado em História.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Recife, 1970, por Risomar Fasanaro
Risomar Fasanaro (*)
Em julho de 1970 voltei ao Recife pela primeira vez, desde que viera morar em Osasco- SP. E foi lá, na minha terra natal que senti de perto os tentáculos da ditadura. Viajei com três amigas: Ilíada, e Maria Antônia, duas estudantes de História e minha amiga Maria clara e eu de Letras.
Escolhemos uma pousada em um sobrado antigo para nos hospedar. Os quartos eram bem grandes, com janelas e portas altíssimas, uma escadaria de metal em caracol que unia o andar térreo ao andar superior. Uma construção da época do Brasil colonial.
Ficamos todas no mesmo quarto, e à noite, já deitadas, contei às minhas amigas uma história que se passou no Recife e que desde pequena me fascinou: a história da emparedada da Rua Nova, que muitas vezes ouvi minha mãe contar. História que o escritor Carneiro Vilela registrou em seu romance “A emparedada da Rua Nova”.
Havia, no século XIX, um senhor de engenho casado e que tinha uma filha. A mulher dele tinha um amante que, dizem, seduziu também a moça e a engravidou. Ao saber da gravidez da filha o senhor de engenho contratou alguns pedreiros, e tanto os homens quanto a moça foram levados encapuzados a um casarão onde a moça foi emparedada viva em uma das paredes do casarão.
Contam também que quando começaram a demolir algumas construções antigas no centro daquela cidade, encontraram em um casarão o esqueleto de uma mulher e de um feto, presos em uma parede. Se é verdade, não sei. Dirá melhor quem vive lá.
Aquela noite, junto com minhas amigas olhando aquele teto altíssimo e vendo a espessura daquelas paredes fiquei imaginando o sofrimento daquela moça amarrada e amordaçada sem poder reagir. Pensava na possibilidade de aquela história ser real e a que crimes o poder patriarcal, e o falso puritanismo levam. Muitas vezes maiores que os do próprio réu.
Alguns amigos me pedem que conte algumas passagens que vivi durante os anos de chumbo. É para atender a esses pedidos que início hoje algumas passagens que vivi durante os anos de chumbo. E, se for autorizada, contar histórias de pessoas próximas que também viveram alguns momentos difíceis naquela época.
Saí do Recife com onze anos, conheço muito pouco minha cidade, e a sede de conhecê-la é muito grande até hoje. Aquela viagem tinha tudo para ser perfeita: estava com três pessoas interessadíssimas em conhecer a história e a cultura de Pernambuco, por isso eu estava muito feliz. Fotografava tudo que achava interessante: mulheres rendeiras, as crianças, as vendedoras de tapioca nas ruas, as pontes, as igrejas, e o rio. O Rio Capibaribe que é minha maior paixão naquela cidade.
E não só fotografava. Anotava palavras, frases, tudo que nos interessava. Maria Clara andava com um bloquinho, pois este era um conselho da professora Ada Natal Rodrigues, nossa professora de Lingüística. Até hoje tenho o hábito de anotar e fotografar tudo que posso, e era o que estávamos fazendo naquele dia chuvoso de julho.
À tarde iríamos a Natal; já estávamos com as passagens compradas, e de Natal partiríamos de volta para São Paulo, mas não voltaria sem ir a Socorro onde passei minha infância.
Saímos cedinho, Alba e eu. E quando entramos no ônibus comecei a sentir angústia, um sentimento que me toma sempre que vai acontecer algo ruim a mim ou a alguém muito ligado a mim. Já desacreditei disso, tentei achar que era ilusão, mas a cada dia mais isso se confirma. Algo dentro de mim recebe antes o que vai acontecer. Contei a Alba o que estava sentindo e ela me acalmou: “é a emoção da volta”.
Chegando a Socorro, nos dirigimos à guarita da sentinela, já que desde criança me acostumara que só se entrava na vila depois de se identificar junto ao soldado que ali fica de plantão.
O soldado nos informou que para entrar era preciso pedir autorização ao oficial de dia. Para isso teríamos de nos dirigir a um prédio que ficava a uns trezentos metros de distância.
Saímos, minha amiga e eu, em direção ao outro prédio. No espaço que liga a guarita ao prédio, ficam a igreja, a escola e o cinema, os locais que frequentei quase diariamente durante vários anos. Por isso resolvi ir fotografando cada um. Começou a chover e nos abrigamos sob a marquise do cinema, para esperar a chuva passar. De lá se via todo o quartel, e olhando a neblina que formava uma leve cortina de água, li a frase em letras garrafais de cimento branco, sobre o gramado, que se encontra em frente ao prédio: AQUI SE APRENDE A AMAR E A DEFENDER A PÁTRIA.
Tirei uma foto daquela frase para trazer para meu pai que ali servira muitos anos. Mas logo, logo saberíamos de que forma os que ali dentro trabalhavam, defendiam meu país, minha pátria. Na próxima semana conto o que vivemos naquele local.
(*) Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora, autora de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e José Louzeiro. Militante contra a última ditadura militar no Brasil.
Em julho de 1970 voltei ao Recife pela primeira vez, desde que viera morar em Osasco- SP. E foi lá, na minha terra natal que senti de perto os tentáculos da ditadura. Viajei com três amigas: Ilíada, e Maria Antônia, duas estudantes de História e minha amiga Maria clara e eu de Letras.
Escolhemos uma pousada em um sobrado antigo para nos hospedar. Os quartos eram bem grandes, com janelas e portas altíssimas, uma escadaria de metal em caracol que unia o andar térreo ao andar superior. Uma construção da época do Brasil colonial.
Ficamos todas no mesmo quarto, e à noite, já deitadas, contei às minhas amigas uma história que se passou no Recife e que desde pequena me fascinou: a história da emparedada da Rua Nova, que muitas vezes ouvi minha mãe contar. História que o escritor Carneiro Vilela registrou em seu romance “A emparedada da Rua Nova”.
Havia, no século XIX, um senhor de engenho casado e que tinha uma filha. A mulher dele tinha um amante que, dizem, seduziu também a moça e a engravidou. Ao saber da gravidez da filha o senhor de engenho contratou alguns pedreiros, e tanto os homens quanto a moça foram levados encapuzados a um casarão onde a moça foi emparedada viva em uma das paredes do casarão.
Contam também que quando começaram a demolir algumas construções antigas no centro daquela cidade, encontraram em um casarão o esqueleto de uma mulher e de um feto, presos em uma parede. Se é verdade, não sei. Dirá melhor quem vive lá.
Aquela noite, junto com minhas amigas olhando aquele teto altíssimo e vendo a espessura daquelas paredes fiquei imaginando o sofrimento daquela moça amarrada e amordaçada sem poder reagir. Pensava na possibilidade de aquela história ser real e a que crimes o poder patriarcal, e o falso puritanismo levam. Muitas vezes maiores que os do próprio réu.
Alguns amigos me pedem que conte algumas passagens que vivi durante os anos de chumbo. É para atender a esses pedidos que início hoje algumas passagens que vivi durante os anos de chumbo. E, se for autorizada, contar histórias de pessoas próximas que também viveram alguns momentos difíceis naquela época.
Saí do Recife com onze anos, conheço muito pouco minha cidade, e a sede de conhecê-la é muito grande até hoje. Aquela viagem tinha tudo para ser perfeita: estava com três pessoas interessadíssimas em conhecer a história e a cultura de Pernambuco, por isso eu estava muito feliz. Fotografava tudo que achava interessante: mulheres rendeiras, as crianças, as vendedoras de tapioca nas ruas, as pontes, as igrejas, e o rio. O Rio Capibaribe que é minha maior paixão naquela cidade.
E não só fotografava. Anotava palavras, frases, tudo que nos interessava. Maria Clara andava com um bloquinho, pois este era um conselho da professora Ada Natal Rodrigues, nossa professora de Lingüística. Até hoje tenho o hábito de anotar e fotografar tudo que posso, e era o que estávamos fazendo naquele dia chuvoso de julho.
À tarde iríamos a Natal; já estávamos com as passagens compradas, e de Natal partiríamos de volta para São Paulo, mas não voltaria sem ir a Socorro onde passei minha infância.
Saímos cedinho, Alba e eu. E quando entramos no ônibus comecei a sentir angústia, um sentimento que me toma sempre que vai acontecer algo ruim a mim ou a alguém muito ligado a mim. Já desacreditei disso, tentei achar que era ilusão, mas a cada dia mais isso se confirma. Algo dentro de mim recebe antes o que vai acontecer. Contei a Alba o que estava sentindo e ela me acalmou: “é a emoção da volta”.
Chegando a Socorro, nos dirigimos à guarita da sentinela, já que desde criança me acostumara que só se entrava na vila depois de se identificar junto ao soldado que ali fica de plantão.
O soldado nos informou que para entrar era preciso pedir autorização ao oficial de dia. Para isso teríamos de nos dirigir a um prédio que ficava a uns trezentos metros de distância.
Saímos, minha amiga e eu, em direção ao outro prédio. No espaço que liga a guarita ao prédio, ficam a igreja, a escola e o cinema, os locais que frequentei quase diariamente durante vários anos. Por isso resolvi ir fotografando cada um. Começou a chover e nos abrigamos sob a marquise do cinema, para esperar a chuva passar. De lá se via todo o quartel, e olhando a neblina que formava uma leve cortina de água, li a frase em letras garrafais de cimento branco, sobre o gramado, que se encontra em frente ao prédio: AQUI SE APRENDE A AMAR E A DEFENDER A PÁTRIA.
Tirei uma foto daquela frase para trazer para meu pai que ali servira muitos anos. Mas logo, logo saberíamos de que forma os que ali dentro trabalhavam, defendiam meu país, minha pátria. Na próxima semana conto o que vivemos naquele local.
(*) Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora, autora de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e José Louzeiro. Militante contra a última ditadura militar no Brasil.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
As últimas sessões de Marilyn, por Evelyne FurtadoEvelyne Furtado (*)
"Os homens querem ir à lua, mas não se interessam pelo coração humano".(Fala de Marilyn Monroe no livro Marilyn “As ùltimas Sessões”).
”Marilyn ùltimas Sessões”. Comprei por impulso. Já estava com outro livro na mão quando meus olhos pousaram no volume de capa escura com uma foto de Marilyn Monroe, sorrindo sutilmente com um cigarro na mão.
Li a orelha falando sobre o autor Michel Scheneider. Psicanalista francês, escritor premiado que entrelaça, no romance, o relacionamento da atriz com seu psicanalista Ralfh Greenson nos dois últimos anos de vida da atriz.
Não tinha como errar na aquisição. Adoro biografias e a psicanálise é um assunto a mim muito interessante, apesar de conhecê-la pouco.
Comecei a ler, porém o autor não me seduziu a princípio. Acredito que a tradução tenha prejudicado a narrativa. Deixei o livro, marcado e dediquei-me à leitura de outro que já havia iniciado.
Quando encerro a leitura de um livro envolvente sinto um vazio. Como se um amor fosse embora. Despedi-me dos personagens queridos e naquela mesma noite ganhei um brinco cuja a embalagem trazia o nome da loja: Nunca Fui Santa.
Ao me recolher, tarde da noite, retornei a “Marilyn Últimas Sessões”, exatamente no capítulo em que o autor se referia às filmagens de “Nunca Fui Santa”, filme no qual Marilyn atuou. Não parei mais de ler e mergulhei na alma de Norma Jeane Baker, a menina perdida que se tornou o maior mito sexual da história moderna.
Se antes me comovia sua morte precoce, aos 36 anos, no ano em que nasci; hoje me espanto por Marilyn Monroe ter resistido esses anos todos, diante da fragilidade de sua estrutura emocional.
Sua alma era de uma sobrevivente, a despeito do glamour e da sexualidade aparente. Reiventou-se, descolorindo os cabelos e adotando um novo nome, deixando de ser Norma Jeane para se tornar Marilyn Monroe.
Tentou apagar anos de rejeição, ocasionados pela doença mental da mãe que a abandonou e pelas passagens por orfanatos e por várias famílias, onde foi abusada por pais adotivos, com a troca de sexo para obter amor em sua vida adulta.
Marilyn teve muitos homens, entre eles: Joe DiMagio, jogador de basebol e Arthur Miller, dramaturgo, com quem se casou. Teve casos com Elia Kazan, Frank Sinatra, Ives Montand e, finalmente, com os irmãos John e Bobby Kennedy.
Mas, o livro aborda superficialmente esses relacionamentos. O autor explora a relação de dependência total entre a paciente e o psicanalista Ralph Greenson, revelando o caos emocional da mulher por trás da imagem. As estrelas são fascinantes e tentamos descobrir o que existe além do brilho. É então que atua a psicanálise adentrando e revelando, mais de quarenta anos após a sua morte, a alma da mulher que lutou para fugir do estereótipo que Hollywood criara para ela: loura, sexi e boba.
Marilyn Monroe não era pouco superficial. Embora amasse sua imagem, a estrela lia bons autores, preocupava-se em aprender e se aprofundava em seus fantasmas para se livrar deles.. Foi analisada inclusive por Ana Freud e citou Joyce em fitas que deixou para o seu Doutor.
Era uma criança órfã em um corpo de mulher que amadurecia, que tinha medo e que era incrivelmente só. Entupia-se de barbitúricos, anfentaminas e outras drogas para se manter viva.
Greenson não conseguiu salvá-la da dor e do vazio que a perseguia, apesar de ter, por dois anos, tomado conta de todos os aspectos da vida da mocinha que se tornara atriz para sobreviver a si mesma. O autor deixa claro, no entanto, que não havia relacionamento sexual entre eles.
A leitura tem um lado pueril por revelar um pouco a intimidade de alguns mitos do cinema e da política dos anos sessenta, porém é mórbida. E não tinha como escapar disso, pois a iniciamos sabendo como foi trágico e ainda incompreendido o fim da vida de Marilyn.
O mito superou a mulher, que em agosto de 1962 sucumbiu ao desespero não se sabe se por acidente ou se por intenção. Ainda hoje as fotos de Marilyn Monroe são disputadas em leilões e seu rosto é conhecido até pelos que nasceram muito depois de sua morte.
Depois do livro, sugiro uma nova sessão de “O Pecado Mora ao Lado”. Volta-se, então, à ilusão que o cinema criou.
"Ela ficava em polvorosa enquanto a paz não fosse restabelecida"(Do relatório do Dr. Greenson a Ana Freud). (*) Cronista e poetisa em Natal/RN.
”Marilyn ùltimas Sessões”. Comprei por impulso. Já estava com outro livro na mão quando meus olhos pousaram no volume de capa escura com uma foto de Marilyn Monroe, sorrindo sutilmente com um cigarro na mão.
Li a orelha falando sobre o autor Michel Scheneider. Psicanalista francês, escritor premiado que entrelaça, no romance, o relacionamento da atriz com seu psicanalista Ralfh Greenson nos dois últimos anos de vida da atriz.
Não tinha como errar na aquisição. Adoro biografias e a psicanálise é um assunto a mim muito interessante, apesar de conhecê-la pouco.
Comecei a ler, porém o autor não me seduziu a princípio. Acredito que a tradução tenha prejudicado a narrativa. Deixei o livro, marcado e dediquei-me à leitura de outro que já havia iniciado.
Quando encerro a leitura de um livro envolvente sinto um vazio. Como se um amor fosse embora. Despedi-me dos personagens queridos e naquela mesma noite ganhei um brinco cuja a embalagem trazia o nome da loja: Nunca Fui Santa.
Ao me recolher, tarde da noite, retornei a “Marilyn Últimas Sessões”, exatamente no capítulo em que o autor se referia às filmagens de “Nunca Fui Santa”, filme no qual Marilyn atuou. Não parei mais de ler e mergulhei na alma de Norma Jeane Baker, a menina perdida que se tornou o maior mito sexual da história moderna.
Se antes me comovia sua morte precoce, aos 36 anos, no ano em que nasci; hoje me espanto por Marilyn Monroe ter resistido esses anos todos, diante da fragilidade de sua estrutura emocional.
Sua alma era de uma sobrevivente, a despeito do glamour e da sexualidade aparente. Reiventou-se, descolorindo os cabelos e adotando um novo nome, deixando de ser Norma Jeane para se tornar Marilyn Monroe.
Tentou apagar anos de rejeição, ocasionados pela doença mental da mãe que a abandonou e pelas passagens por orfanatos e por várias famílias, onde foi abusada por pais adotivos, com a troca de sexo para obter amor em sua vida adulta.
Marilyn teve muitos homens, entre eles: Joe DiMagio, jogador de basebol e Arthur Miller, dramaturgo, com quem se casou. Teve casos com Elia Kazan, Frank Sinatra, Ives Montand e, finalmente, com os irmãos John e Bobby Kennedy.
Mas, o livro aborda superficialmente esses relacionamentos. O autor explora a relação de dependência total entre a paciente e o psicanalista Ralph Greenson, revelando o caos emocional da mulher por trás da imagem. As estrelas são fascinantes e tentamos descobrir o que existe além do brilho. É então que atua a psicanálise adentrando e revelando, mais de quarenta anos após a sua morte, a alma da mulher que lutou para fugir do estereótipo que Hollywood criara para ela: loura, sexi e boba.
Marilyn Monroe não era pouco superficial. Embora amasse sua imagem, a estrela lia bons autores, preocupava-se em aprender e se aprofundava em seus fantasmas para se livrar deles.. Foi analisada inclusive por Ana Freud e citou Joyce em fitas que deixou para o seu Doutor.
Era uma criança órfã em um corpo de mulher que amadurecia, que tinha medo e que era incrivelmente só. Entupia-se de barbitúricos, anfentaminas e outras drogas para se manter viva.
Greenson não conseguiu salvá-la da dor e do vazio que a perseguia, apesar de ter, por dois anos, tomado conta de todos os aspectos da vida da mocinha que se tornara atriz para sobreviver a si mesma. O autor deixa claro, no entanto, que não havia relacionamento sexual entre eles.
A leitura tem um lado pueril por revelar um pouco a intimidade de alguns mitos do cinema e da política dos anos sessenta, porém é mórbida. E não tinha como escapar disso, pois a iniciamos sabendo como foi trágico e ainda incompreendido o fim da vida de Marilyn.
O mito superou a mulher, que em agosto de 1962 sucumbiu ao desespero não se sabe se por acidente ou se por intenção. Ainda hoje as fotos de Marilyn Monroe são disputadas em leilões e seu rosto é conhecido até pelos que nasceram muito depois de sua morte.
Depois do livro, sugiro uma nova sessão de “O Pecado Mora ao Lado”. Volta-se, então, à ilusão que o cinema criou.
"Ela ficava em polvorosa enquanto a paz não fosse restabelecida"(Do relatório do Dr. Greenson a Ana Freud). (*) Cronista e poetisa em Natal/RN.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Inquietude, por Marleuza Machado
Marleuza Machado (*)
Nasceu do nada, através do que não foi.
A onda chegou de mansinho, de repente era furacão.
Preencheu o vazio do “não ter”,
Fechando a lacuna do “perder”...
Tendo ilusões, ganhando cor.
É o recobrar da consciência batendo à porta.
É o “sentir quê” ocupando o lugar do “ter quê”.
Ficaram espaços vazios? Outros sonhos virão!
Houve lágrimas? Está de cara e alma lavadas!
O amor se foi? Ficaram boas lembranças!
Percebe não “ser só” apenas “está só”.
Percorre o árduo caminho de quem ousa sonhar...
Usa atalhos, desvios, sombras e remansos.
Tropeça, cai, levanta, trata das feridas e vai em frente...
Novas aventuras, encontros e reencontros?
Quem venham!
Corre todos os riscos para "bem viver".
" É um carinho guardado no cofre
De um coração que voou
É um afeto deixado nas veias
De um coração que ficou"... (Gonzaguinha)
(*) Estudante de Jornalismo.
Nasceu do nada, através do que não foi.
A onda chegou de mansinho, de repente era furacão.
Preencheu o vazio do “não ter”,
Fechando a lacuna do “perder”...
Tendo ilusões, ganhando cor.
É o recobrar da consciência batendo à porta.
É o “sentir quê” ocupando o lugar do “ter quê”.
Ficaram espaços vazios? Outros sonhos virão!
Houve lágrimas? Está de cara e alma lavadas!
O amor se foi? Ficaram boas lembranças!
Percebe não “ser só” apenas “está só”.
Percorre o árduo caminho de quem ousa sonhar...
Usa atalhos, desvios, sombras e remansos.
Tropeça, cai, levanta, trata das feridas e vai em frente...
Novas aventuras, encontros e reencontros?
Quem venham!
Corre todos os riscos para "bem viver".
" É um carinho guardado no cofre
De um coração que voou
É um afeto deixado nas veias
De um coração que ficou"... (Gonzaguinha)
(*) Estudante de Jornalismo.
segunda-feira, 25 de maio de 2009
O violão e o tapa, por Marco Albertim
Marco Albertim (*)
Quem mantém a crônica na memória, arrisca-se a misturá-la com outros fatos, a atabalhoar-se com outras lembranças. Quem decide fazer o registro com letras, por miúdas que sejam, corre o risco de atropelar nomes; e só este risco paga o feito. Assim, grosso modo, tenho a licença para o resgate de um episódio. Muitos, do gênero, já foram resgatados. A memória sentir-se-ia poltrona caso renunciasse aos ditames de si mesma. Foi aqui perto de mim, onde passo todos os dias, distinguindo num banco de praça, os coturnos de soldados do exército, pisando na grama, mais fortes que o piso de cimento já estropiado, em volta do tanque com um jacaré moldado num cimento branco.
A Praça do Jacaré, em Olinda, logo será ocupada por troças de carnaval; já foi ocupada por uma milícia verde-oliva, tão raivosa quanto o jacaré real que inspirara a mão do escultor. A viatura estacionou na avenida em frente, em frente ao Colégio São Bento, com alunos ignorando os instintos liberticidas dos oficiais desaquartelados.
Frederico tinha pouco mais de dezessete anos. Junto com outros de sua idade, pôs-se a vibrar a corda do violão recém-comprado; comprara com o dinheiro obtido dando aulas a vizinhos carentes de informações sobre regra de três, equações. Não tinham dinheiro para pagar o cursinho particular, valiam-se da habilidade de Fred no manejo de cálculos.
Os soldados, à frente um oficial, bateram com a porta da viatura. O ruído confundiu-se com o dos motores em marcha na avenida. Os rapazes não se deram conta, visto que a viatura, verde-escura, misturava-se, camuflava-se no escuro das poucas luzes na avenida.
Frederico Carlos, cujo último nome é o mesmo do autor do presente texto, fora inquirido pela mãe, dois dias antes, de como comprara o violão, um instrumento caro. A velha Dudinha, entretida nos quitutes da cozinha, na costura de uma máquina Singer já fora de linha, não desconfiara, jamais suspeitara que o filho fosse capaz de amealhar por um ano; para comprar não um custoso DiGiorgio ou um Giannini, mas um violão ordinário, de marca desconhecida como o Tonante. Voltou, ele, do colégio, almoçou sem mastigar direito e foi para Recife. Comprou o violão na primeira loja, para não perder tempo com pesquisa de preços; comprou com a ansiedade dos moços.
Os soldados se acercaram dos rapazes sentados, ouvindo, apreciando o instrumento novo. Convém dizer que violão era instrumento de subversivos, visto que com ele alguns artistas se atreviam a compor músicas com letras sediciosas.
- Que reunião é essa aí!? – quis saber o soldado.
Se violão era instrumento inconfiável, o que dizer de uma reunião de moços numa praça de uso popular? Oscar, o professor de violão, foi o primeiro a assustar-se; não demoraria dois minutos e ele se sentiria aliviado por não ser o dono do violão, não segurá-lo no momento.
- Vamos! Eu estou perguntando! Que reunião é essa aí?
Fred, que ainda não descobrira o lirismo de músicas antiditatoriais, alienando-se na frivolidade recém-criada da jovem guarda, não soube o que responder. Pôs o violão sob o braço, apoiando-o na coxa. O braço, com as cordas, ficou de frente para o militar. Sentiu-se desfeiteado o soldadinho, justo no instante em que, mesmo sem qualquer divisa na farda, podia falar, gritar como um general, pôr-se maior do que a própria altura. O soldado olhara só para Fred, porque fora ele o mais atrevido. Onde já se viu estudante com violão em praça pública!?
- A gente está só conversando... – gaguejou Fred.
- Trate-me de senhor!
O tapa no rosto do estudante soou conforme a indignação balofa do soldadinho, tão balofa quanto o olhar de aprovação do oficial no comando da patrulha. Cruzara os braços, o oficial; tinha mais era que cruzá-los... Adestrara seus homens, apurara-os no instinto de um guabiru catando carniça subversiva.
Pôs a mão no rosto, Fred; dor, ardor, vergonha de apanhar em público; na frente do jacaré que o vira crescer. Olhou para trás quando virou o rosto. Pediu ajuda ao jacaré, forçou-se telepático com a estátua inamovível. Teve pena do bicho, porque também o bicho que o vira menino, sentiu-se estapeado sem poder reagir com as presas na boca.
Oscar-Perna-Torada esqueceu as notas, arrependendo-se de tê-las repassado ao aluno; sentiu alívio porque não trouxera seu Giannini.
O soldado, puxando das mãos de sua presa o violão, sentiu alguma resistência no estudante insubmisso. Deu-lhe um pontapé na cintura, de lado, deixando-o penso; aproveitou para puxar de vez o violão. Depois, quebrou-o na amurada do tanque, deixou-o em pedaços; destruiu-o para em seguida registrar o feito à frente de um coronel. Não receberia uma medalha, seria elogiado, talvez permanecesse por mais tempo no exército, evitando a rejeição social por ser semianalfabeto.
A reunião foi desfeita. Os estudantes voltaram para casa. Fred, sem violão, entrou no quarto sem falar com a mãe. Para quê! Para dizer que perdera o violão, fora estapeado na rua?
(*) Jornalista e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”. Tem dois livros de contos e um romance.
Quem mantém a crônica na memória, arrisca-se a misturá-la com outros fatos, a atabalhoar-se com outras lembranças. Quem decide fazer o registro com letras, por miúdas que sejam, corre o risco de atropelar nomes; e só este risco paga o feito. Assim, grosso modo, tenho a licença para o resgate de um episódio. Muitos, do gênero, já foram resgatados. A memória sentir-se-ia poltrona caso renunciasse aos ditames de si mesma. Foi aqui perto de mim, onde passo todos os dias, distinguindo num banco de praça, os coturnos de soldados do exército, pisando na grama, mais fortes que o piso de cimento já estropiado, em volta do tanque com um jacaré moldado num cimento branco.
A Praça do Jacaré, em Olinda, logo será ocupada por troças de carnaval; já foi ocupada por uma milícia verde-oliva, tão raivosa quanto o jacaré real que inspirara a mão do escultor. A viatura estacionou na avenida em frente, em frente ao Colégio São Bento, com alunos ignorando os instintos liberticidas dos oficiais desaquartelados.
Frederico tinha pouco mais de dezessete anos. Junto com outros de sua idade, pôs-se a vibrar a corda do violão recém-comprado; comprara com o dinheiro obtido dando aulas a vizinhos carentes de informações sobre regra de três, equações. Não tinham dinheiro para pagar o cursinho particular, valiam-se da habilidade de Fred no manejo de cálculos.
Os soldados, à frente um oficial, bateram com a porta da viatura. O ruído confundiu-se com o dos motores em marcha na avenida. Os rapazes não se deram conta, visto que a viatura, verde-escura, misturava-se, camuflava-se no escuro das poucas luzes na avenida.
Frederico Carlos, cujo último nome é o mesmo do autor do presente texto, fora inquirido pela mãe, dois dias antes, de como comprara o violão, um instrumento caro. A velha Dudinha, entretida nos quitutes da cozinha, na costura de uma máquina Singer já fora de linha, não desconfiara, jamais suspeitara que o filho fosse capaz de amealhar por um ano; para comprar não um custoso DiGiorgio ou um Giannini, mas um violão ordinário, de marca desconhecida como o Tonante. Voltou, ele, do colégio, almoçou sem mastigar direito e foi para Recife. Comprou o violão na primeira loja, para não perder tempo com pesquisa de preços; comprou com a ansiedade dos moços.
Os soldados se acercaram dos rapazes sentados, ouvindo, apreciando o instrumento novo. Convém dizer que violão era instrumento de subversivos, visto que com ele alguns artistas se atreviam a compor músicas com letras sediciosas.
- Que reunião é essa aí!? – quis saber o soldado.
Se violão era instrumento inconfiável, o que dizer de uma reunião de moços numa praça de uso popular? Oscar, o professor de violão, foi o primeiro a assustar-se; não demoraria dois minutos e ele se sentiria aliviado por não ser o dono do violão, não segurá-lo no momento.
- Vamos! Eu estou perguntando! Que reunião é essa aí?
Fred, que ainda não descobrira o lirismo de músicas antiditatoriais, alienando-se na frivolidade recém-criada da jovem guarda, não soube o que responder. Pôs o violão sob o braço, apoiando-o na coxa. O braço, com as cordas, ficou de frente para o militar. Sentiu-se desfeiteado o soldadinho, justo no instante em que, mesmo sem qualquer divisa na farda, podia falar, gritar como um general, pôr-se maior do que a própria altura. O soldado olhara só para Fred, porque fora ele o mais atrevido. Onde já se viu estudante com violão em praça pública!?
- A gente está só conversando... – gaguejou Fred.
- Trate-me de senhor!
O tapa no rosto do estudante soou conforme a indignação balofa do soldadinho, tão balofa quanto o olhar de aprovação do oficial no comando da patrulha. Cruzara os braços, o oficial; tinha mais era que cruzá-los... Adestrara seus homens, apurara-os no instinto de um guabiru catando carniça subversiva.
Pôs a mão no rosto, Fred; dor, ardor, vergonha de apanhar em público; na frente do jacaré que o vira crescer. Olhou para trás quando virou o rosto. Pediu ajuda ao jacaré, forçou-se telepático com a estátua inamovível. Teve pena do bicho, porque também o bicho que o vira menino, sentiu-se estapeado sem poder reagir com as presas na boca.
Oscar-Perna-Torada esqueceu as notas, arrependendo-se de tê-las repassado ao aluno; sentiu alívio porque não trouxera seu Giannini.
O soldado, puxando das mãos de sua presa o violão, sentiu alguma resistência no estudante insubmisso. Deu-lhe um pontapé na cintura, de lado, deixando-o penso; aproveitou para puxar de vez o violão. Depois, quebrou-o na amurada do tanque, deixou-o em pedaços; destruiu-o para em seguida registrar o feito à frente de um coronel. Não receberia uma medalha, seria elogiado, talvez permanecesse por mais tempo no exército, evitando a rejeição social por ser semianalfabeto.
A reunião foi desfeita. Os estudantes voltaram para casa. Fred, sem violão, entrou no quarto sem falar com a mãe. Para quê! Para dizer que perdera o violão, fora estapeado na rua?
(*) Jornalista e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”. Tem dois livros de contos e um romance.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Alívio, por Marcos Alves
Marcos Alves (*)
O sujeito era emburrado. Ela, muito solta. Ele era caladão. Ela, falante. Dançava e cantava de biquíni na praia, embalada pelo som e generosos goles de cerveja. Ele bebia também, mas era o oposto. Parecia frágil e olhava para a mulher sem saber o que fazer.
“Por trás de um homem triste há sempre uma mulher feliz”. O verso de Chico fazia total sentido para esse casal. Famílias se divertindo na praia, e ela era a estrela do lugar. Ele, gordo, desleixado. Ela, corpo escultural, sensualidade aflorada.
A noite se aproxima e a praia vai ficando vazia. O homem pede a conta e enquanto o garçom busca a nota, se vira para ela para chamar-lhe a atenção. “Pára com isso, parece uma p.!” O sorriso dela desaparece num piscar de olhos e dá lugar a um franzir de testa, breve tristeza que por um instante lhe rouba a beleza.
Era só o começo de um enredo que ambos conheciam bem. De volta para casa a discussão começa. O homem diz coisas desagradáveis, tomado pelo despeito. Ele sabe que não pode com tanta beleza, é quase uma agressão para essa alma desprovida de sensibilidade.
Ele agora é dono da situação. Ela é um enigma, uma esfinge, e guarda segredos que teme serem descobertos. Ele fala, gesticula, afirma e reafirma que é quem manda no ‘pedaço’. Paga as contas, é dono da casa, do carro – enfim, é o provedor. Ela deveria, diz ele, agradecer todos os dias por ter um cara assim. Ela desvia o olhar e não responde, pois sabe o que a espera em caso de discordância.
Mesmo calada, mesmo tendo respeitado as regras, leva um tabefe, um empurrão e um chute. Chora, geme, e agora já não é nem sombra da linda mulher da praia. Há mais gente na casa, mas ninguém se atreve a intervir. De certa forma, todos ali dependem do provedor.
Novas agressões começam, agora com mais força. O homem está vermelho de tanta ira, ela está vermelha de tanto apanhar. Finalmente ele pára, sai do quarto. Ela se tranca no banheiro. Veste um pijaminha branco com borboletas e flores bordadas. Escova os cabelos enquanto uma última lágrima cai do canto do olho. Vai para a cama e reza baixinho. Adormece.
De madrugada, acorda com o barulho da maçaneta se mexendo, mas finge dormir. O homem ainda fede a cerveja, tira as calças, a camisa, e se deita ao lado dela. Olha para aquela nuca delicada, mas não se atreve a tocá-la. Vira-se e procura dormir. Não consegue.
Ambos passam a noite em claro. Ela, com medo de ficar ao lado dele. Ele, com medo de perdê-la definitivamente. O homem, enfim, resolve tocá-la. Alisa-lhe as costas, os cabelos. Ela se mexe, mas não esboça qualquer reação. Ele a puxa com mais força, encosta o corpo no dela. A mulher sabe o que vem depois. Deixa que ele tire o seu pijama, alise suas pernas, acaricie seus peitos, seu sexo.
Ele agora deixa escapar um sorriso de canto de boca. “Você é minha mulher e eu estou pronto”, diz. Ela permite. Era assim há anos. Na manhã seguinte, vão de novo à praia. Ela está bem mais calada, ele muito mais falante. Esbanja segurança e diz um monte de besteiras sobre qualquer coisa: comércio, negócios, mulheres, carros, bebida. O pessoal ri, acha graça, afinal, o homem já adiantou que, hoje, a conta é dele.
Ela bebe água de coco, evita cerveja e tampouco dança, mesmo quando aquela música que tanto gosta toca no som do quiosque. A tarde chega, o pessoal vai embora e eles novamente são um dos últimos a sair da areia. Chegam em casa e de novo o ritual se cumpre, mas dessa vez sem brigas. O homem se diz feliz. “Isso é que é vida; a gente aqui curtindo esse verão, perto da família e dos amigos. Não é meu amor?”
Ela faz sinal de positivo com a cabeça, e dá um sorriso inexpressivo. Vai para o quarto, diz que está indisposta e quer dormir cedo. Partiriam no dia seguinte. A viagem seria cansativa, quase mil quilômetros. “Durma bem”, ele diz a ela.
A mulher vai ao banheiro, escova os cabelos, coloca o pijama. Abre o armário e vê as caixas de remédio do marido. Faz um pedido em silêncio e vai se deitar. Dorme profundamente e só acorda com o choro do filho mais velho, de 7 anos.
- O que foi, meu benzinho?
- Papai foi levado às pressas para o hospital.
- Mas, por quê?
A empregada explica que o homem passou mal e teve que ser internado. “Tentamos avisá-la, mas você não acordava e não havia tempo a perder, ele estava muito esquisito”. “Vamos esperar por notícias aqui mesmo”, diz a mulher, enquanto mastiga uma torradinha e afaga os cabelos da criança.
A empregada acha estranha a reação, ou melhor, a falta de reação da patroa, mas não diz palavra. Passam-se mais alguns minutos e o telefone toca. O homem não havia resistido e morreu. A mulher entrou no banheiro, pegou as caixas de remédio e jogou no lixo. Não seriam mais necessários. Nunca mais.
(*) Jornalista.
O sujeito era emburrado. Ela, muito solta. Ele era caladão. Ela, falante. Dançava e cantava de biquíni na praia, embalada pelo som e generosos goles de cerveja. Ele bebia também, mas era o oposto. Parecia frágil e olhava para a mulher sem saber o que fazer.
“Por trás de um homem triste há sempre uma mulher feliz”. O verso de Chico fazia total sentido para esse casal. Famílias se divertindo na praia, e ela era a estrela do lugar. Ele, gordo, desleixado. Ela, corpo escultural, sensualidade aflorada.
A noite se aproxima e a praia vai ficando vazia. O homem pede a conta e enquanto o garçom busca a nota, se vira para ela para chamar-lhe a atenção. “Pára com isso, parece uma p.!” O sorriso dela desaparece num piscar de olhos e dá lugar a um franzir de testa, breve tristeza que por um instante lhe rouba a beleza.
Era só o começo de um enredo que ambos conheciam bem. De volta para casa a discussão começa. O homem diz coisas desagradáveis, tomado pelo despeito. Ele sabe que não pode com tanta beleza, é quase uma agressão para essa alma desprovida de sensibilidade.
Ele agora é dono da situação. Ela é um enigma, uma esfinge, e guarda segredos que teme serem descobertos. Ele fala, gesticula, afirma e reafirma que é quem manda no ‘pedaço’. Paga as contas, é dono da casa, do carro – enfim, é o provedor. Ela deveria, diz ele, agradecer todos os dias por ter um cara assim. Ela desvia o olhar e não responde, pois sabe o que a espera em caso de discordância.
Mesmo calada, mesmo tendo respeitado as regras, leva um tabefe, um empurrão e um chute. Chora, geme, e agora já não é nem sombra da linda mulher da praia. Há mais gente na casa, mas ninguém se atreve a intervir. De certa forma, todos ali dependem do provedor.
Novas agressões começam, agora com mais força. O homem está vermelho de tanta ira, ela está vermelha de tanto apanhar. Finalmente ele pára, sai do quarto. Ela se tranca no banheiro. Veste um pijaminha branco com borboletas e flores bordadas. Escova os cabelos enquanto uma última lágrima cai do canto do olho. Vai para a cama e reza baixinho. Adormece.
De madrugada, acorda com o barulho da maçaneta se mexendo, mas finge dormir. O homem ainda fede a cerveja, tira as calças, a camisa, e se deita ao lado dela. Olha para aquela nuca delicada, mas não se atreve a tocá-la. Vira-se e procura dormir. Não consegue.
Ambos passam a noite em claro. Ela, com medo de ficar ao lado dele. Ele, com medo de perdê-la definitivamente. O homem, enfim, resolve tocá-la. Alisa-lhe as costas, os cabelos. Ela se mexe, mas não esboça qualquer reação. Ele a puxa com mais força, encosta o corpo no dela. A mulher sabe o que vem depois. Deixa que ele tire o seu pijama, alise suas pernas, acaricie seus peitos, seu sexo.
Ele agora deixa escapar um sorriso de canto de boca. “Você é minha mulher e eu estou pronto”, diz. Ela permite. Era assim há anos. Na manhã seguinte, vão de novo à praia. Ela está bem mais calada, ele muito mais falante. Esbanja segurança e diz um monte de besteiras sobre qualquer coisa: comércio, negócios, mulheres, carros, bebida. O pessoal ri, acha graça, afinal, o homem já adiantou que, hoje, a conta é dele.
Ela bebe água de coco, evita cerveja e tampouco dança, mesmo quando aquela música que tanto gosta toca no som do quiosque. A tarde chega, o pessoal vai embora e eles novamente são um dos últimos a sair da areia. Chegam em casa e de novo o ritual se cumpre, mas dessa vez sem brigas. O homem se diz feliz. “Isso é que é vida; a gente aqui curtindo esse verão, perto da família e dos amigos. Não é meu amor?”
Ela faz sinal de positivo com a cabeça, e dá um sorriso inexpressivo. Vai para o quarto, diz que está indisposta e quer dormir cedo. Partiriam no dia seguinte. A viagem seria cansativa, quase mil quilômetros. “Durma bem”, ele diz a ela.
A mulher vai ao banheiro, escova os cabelos, coloca o pijama. Abre o armário e vê as caixas de remédio do marido. Faz um pedido em silêncio e vai se deitar. Dorme profundamente e só acorda com o choro do filho mais velho, de 7 anos.
- O que foi, meu benzinho?
- Papai foi levado às pressas para o hospital.
- Mas, por quê?
A empregada explica que o homem passou mal e teve que ser internado. “Tentamos avisá-la, mas você não acordava e não havia tempo a perder, ele estava muito esquisito”. “Vamos esperar por notícias aqui mesmo”, diz a mulher, enquanto mastiga uma torradinha e afaga os cabelos da criança.
A empregada acha estranha a reação, ou melhor, a falta de reação da patroa, mas não diz palavra. Passam-se mais alguns minutos e o telefone toca. O homem não havia resistido e morreu. A mulher entrou no banheiro, pegou as caixas de remédio e jogou no lixo. Não seriam mais necessários. Nunca mais.
(*) Jornalista.
segunda-feira, 18 de maio de 2009
A esposa, por Talis Andrade
Talis Andrade (*)
Na longa espera
Penélope tece
a branca túnica
que vestirei
Encontrarei o quarto arrumado
A água de cheiro
a toalha de banho
os quatro chinelos
Descalçarei os sapatos
Os meus pés
os meus pés penetrarão a terra
em busca da profundidade
(Do livro “Romance do Emparedado”, Editora Livro Rápido – Olinda/PE).
(*) Jornalista, poeta, professor de Jornalismo e Relações Públicas e bacharel em História. Trabalhou em vários dos grandes jornais do Nordeste, como a sucursal pernambucana do “Diário da Noite”, “Jornal do Comércio” (Recife), “Jornal da Semana” (Recife) e “A República” (Natal). Tem 11 livros publicados, entre os quais o recém-lançado “Cavalos da Miragem” (Editora Livro Rápido).
Na longa espera
Penélope tece
a branca túnica
que vestirei
Encontrarei o quarto arrumado
A água de cheiro
a toalha de banho
os quatro chinelos
Descalçarei os sapatos
Os meus pés
os meus pés penetrarão a terra
em busca da profundidade
(Do livro “Romance do Emparedado”, Editora Livro Rápido – Olinda/PE).
(*) Jornalista, poeta, professor de Jornalismo e Relações Públicas e bacharel em História. Trabalhou em vários dos grandes jornais do Nordeste, como a sucursal pernambucana do “Diário da Noite”, “Jornal do Comércio” (Recife), “Jornal da Semana” (Recife) e “A República” (Natal). Tem 11 livros publicados, entre os quais o recém-lançado “Cavalos da Miragem” (Editora Livro Rápido).
Assinar:
Postagens (Atom)